Ollantay e Coyllur

O chefe Ollantay, o valente guerreiro e Titã dos Andes, era o herói legendário de Tauantinsuyo, o chefe militar apaixonado por uma bela princesa, a inalcançável Coyllur, filha do Inca Tupac Yupanqui. A princesa Coyllur (Estrela) também se tinha apaixonado pelo valor e pela beleza de Ollantay, mas sabia que este amor era um romance proibido pela estrita lei do Inca, dado que nunca uma donzela de sangue real, uma filha do Inca, e um Andi, um homem do povo, podiam chegar a celebrar um casamento tão desigual, visto que tal ato seria considerado sacrilégio pelo Uilac-Huma, o sumo sacerdote, e lhes acarretaria o castigo máximo. De maneira que Coyllur foi incluida no templo das Aclla, em Mamacunas, enquanto o ofendido general Ollantay levantou-se em rebeldia contra a crueldade do poder político e religioso e deu início a uma luta épica e desigual, enfrentando o herói o próprio Inca e conseguindo reunir todas as virtudes totêmicas sob a sua espada. Assim Ollantay se move com a elasticidade da serpente, atua com a astúcia do raposo, chega até onde só o faz o condor, é tão corajoso como o jaguar e tão duro como as montanhas dos Andes. O guerreiro e a princesa vêem-se recompensados com o nascimento de um filho, de Ima Sumac, o muito belo, e já termina o drama de amores para dar início ao final feliz do triunfo dos humanos sobre o poder incontestável dos incas. Com a luta do pai Ollantay e a entrega apaixonada pela princesa Coyllur, o povo que vive afastado do mundo fechado do Inca, pode aspirar a ser parte da história da qual só foi súdito e cúmplice, mas já não restava muito tempo para que se pudesse transmitir o tesouro da cultura inca do palácio às ruas.




(Ollantay)

O povo Chimú

Quando o Inca Pachacutec conquistou o território da confederação de Chimú, a meados do século XV, pouco antes da chegada dos espanhóis à América, terminou por assimilar as suas crenças, assim como os seus domínios.
(Pachacutec)

O Inca estendeu o seu poder a este senhorio situado das terras dos Moche a Paramonga no sul, ao longo da costa do Peru, império governado pela grande cidade de Chan-Chan. Chimú tinha o deus Kom como seu mediador entre a terra e o céu, onde reinava o deus Sol, Chatay, ajudado pela Lua, Quillapa Huillac, que muitos consideravam mais poderosa do que o Sol, dado que podia reinar na noite e no dia era até capaz de cobrir o Sol e fazê-lo desaparecer do céu nos eclipses. Ao redor destes deuses maiores estavam os deuses celestiais, como os do relâmpago e o trovão, a estrela da manhã (Achachi Ururi) e a estrela da tarde (Apadri Ururi), o demônio que vive na estrela central da constelação de Órion, precisamente a que marca o cinto do caçador e que está acompanhada por outras duas estrelas (Patas), que são as enviadas pela deusa Lua para vigiá-lo de perto no seu deserto e evitar, com o seu perpétuo presidir celestial, que continue fazendo o mal. Também os chimú tinham no seu panteão divindades zoomórficas, como os habituais felinos machados que aparecem na maior parte das culturas absorvidas pelos incas. Para os chimú, o céu era simplesmente uma extensão da terra, e a vida que esperava após a morte era somente a prolongação da primeira terrena. A sua prática religiosa, que começou a ser tão pacífica como tranqüila, se foi movendo no mesmo sentido de sacrifício que as da envolvente, para terminar sendo sanguinária e cruenta, metida numa complicada trama aristocratizante de castas sacerdotais, militares, comerciantes e camponeses, ao estilo da inca, que se movia num fetichismo mágico, num mito cerimonial escuro e arcano, dirigido pela casta sacerdotal para seu benefício político.

Os Mochica

Pouco nos resta dos mitos em que os Mochica ou Moche baseavam a sua religião, pouco resta dessa cultura moche que viveu na zona nortenha da costa do Peru. Mas ficam ainda em pé as suas monumentais pirâmides de adobe de Vicus, embora o tempo corroesse implacavelmente a sua fraca estrutura, tanto que foi fazendo com que se perdesse a sua riqueza coletiva e o seu legado legendário. Devia ter sido um povo costeiro que, como sucessor de muitas culturas e muito diversas, foi agrupando os diversos retalhos mitológicos até formar um grupo de divindades heterogêneas, até criar um conjunto panteístico peculiar ao cuidado da classe sacerdotal e com o jaguar à cabeça das diversas divindades locais, quase todas totêmicas, como o demônio-caranguejo ou o demônio-serpente; os seus animais locais, presididos pelo martim pescador e as curiosas cerâmicas sexuais nas quais se supõe que se quer dar uma lição de moral, unindo a figura do prazer à da morte. Os seus dois grandes templos, a Huaca do Sol e a Huaca da Lua, são duas obras impressionantes e sem igual.

Nazca

No vale de Palpa encontra-se uma gigantesca e quase invisível construção, realizada com pedras de pequeno tamanho, marcando no seu solo uma série de figuras que parece impossível que tenham sido realizadas sem que se pudesse observar e dirigir a sua construção a partir de algum lugar elevado. Esta grande construção, ou melhor, este desenho monumental, pertence à cultura de Nazca, que já os espanhóis conheceram em parte, apesar de terem sido um dos muitos povos absorvidos pela expansão do império inca. A moderna lenda quis ver em Palpa todas as classes de artifícios mágicos e até extraterrestres, mas este vale tinha outra utilidade muito mais precisa e interessante: a observação astronômica. De uma praça central partem 23 retas, na sua maior parte de uns 182 metros de longitude, outras da metade ou quarta parte dessa longitude e outras de 26 metros, o que demonstra que se trata duma construção baseada numa ordem geométrica precisa.

As linhas marcam pontos que guardam relação com o solstício e o equinócio, e deviam ter servido de instrumento de medida para estabelecer o calendário solar. Quanto aos verdadeiros mitos de Nazca, não se sabe demasiado, à parte da existência do felino manchado, talvez personificação de Pachacamac, quando aparece rodeado por serpentes, pelo puma ou gato da água ou dos lagos e pelo gato-demônio; também aparece a figura do reduzido zig-zag, com uma serpente no seu lombo, a do homem-centopéia, a aranha de oito patas e as mais locais (Nazca era uma povoação de pescadores) da baleia, a terrível divindade chamada Boto, uma espécie muito particular de deus de todos os terrores; mas não há que esquecer o deus do Mar, com corpo de peixe, cara coberta de ângulos e um cetro ou uma cabeça cortada na sua mão, e a do Poderoso Senhor do Mar, que costuma representar-se em cenários de peixes e pescadores, mais como a figura de um ser legendário da sua história do que como a de um deus da mitologia nazca.

As Aclas - Virgens do Sol

Para proporcionar o melhor culto possível ao deus Sol, além das suas diversas classes de sacerdotes, os Incas tinham instituído uma importante instituição de virgens dedicadas ao seu serviço, conhecida como Intip Chinán, na qual entravam as meninas escolhidas na sua infância (aos oito anos) para se converterem em acllas após um estrito noviciado que cobria os primeiros anos da sua estadia conventual, sob a direção de uma superiora, Mamo Cuna, educadora, vigilante e examinadora das jovens submetidas à sua tutela. Diga-se que também Mamacunas (as escolhidas) era o nome do templo das Aclla. Mas esta profissão religiosa não era só um chamado ou uma obrigação para acudir forçosamente ao serviço da religião, senão que se tratava de uma educação seletiva e esmerada para as jovens das classes superiores, dado que, uma vez chegada à idade dapuberdade, entre os treze e os quinze anos de idade, passavam a ser "apresentadas em sociedade", para serem as prometidas de senhores da nobreza, dado que o período de serviço no Inti Chinán como aclla era também a garantia da qualidade da sua linhagem e a melhor educação e, evidentemente, a melhor prova exibível publicamente da sua incontestável virgindade, dado que não guardar a obrigada castidade e, sobretudo, ser surpreendida com um homem significava, para a vestal em exercício, a sua inapelável condenação a morte, em uma morte cruelmente exemplar, deixando-a morrer de inanição, para que não fosse a mão do ser humano que matasse as sacerdotisas, senão o abandono. Este castigo, muito similar ao aplicado às vestais romanas consideradas impuras, era também tão duro como todos os que se aplicavam às virgens escolhidas para o serviço dos deuses, em todas as outras latitudes com as vestais infiéis, como uma extensão do máximo castigo que sempre foi aplicado exclusivamente às mulheres infiéis na religião ou na vida matrimonial, sem que nunca se tenha aplicado uma norma como contrapartida similar para os muito menos castos homens de religião, seja qual for a doutrina considerada.

Diga-se também que parece que, se chegasse a produzir uma gravidez de uma das aclas, sempre que não houvesse provas contra a exigida adesão à norma estrita da virgindade requerida, se considerava que tal gravidez tinha sido realizado pela explícita vontade e pessoal ação do deus Sol e, automaticamente, o filho que tivesse a vestal era considerado privilegiado filho do deus solar e, como tal, recebia um tratamento de favor para o resto de seus dias.

O culto divino

Se grandiosa foi a aparição do primeiro Inca e a primeira Coya, grandioso foi também o seu culto. Eles eram adorados na multidão de templos solares de todos os cantos do Império, num lugar do santoral muito próximo do grande deus Sol. De todas as localizações religiosas dedicados a este grande deus inca, quer se tratasse de templos, oratórios, pirâmides ou lugares sagrados naturais, o que os precedia, por rango e pela sua grandeza, era o grande santuário de Inti-Huasi de Cuzco, rico templo chamado também Coricancha, ou sala de ouro, dado que as suas paredes estavam recobertas por lâminas desse metal, para maior glória do Inca e dos deuses de quem ele descendia. A imagem central do Coricancha era o grande disco solar, a imagem ortodoxa e ritual do deus do Sol, e ao seu redor estavam as outras capelas das divindades menores do céu. Após Coricancha, pelo seu esplendor e importância se situa o templo dedicado pelos chinchas a Pachacamac em Lurin, perto de Lima.

Deve apontar-se que a cultura Chincha tinha em Chincha Camac o seu ser Supremo, dado que, embora adorassem o deus Pachacamac (mais por temor do que por respeito ou amor), e a ele dedicavam templos e huacas como uma ação de agradecimento pelo seu trabalho criador e oferendas feitas por elas ou selecionadas entre os seus frutos, por ser o salvador dos seus antepassados que livrou da fome inicial, também estavam cientes de que este poderoso e temível deus, pela sua especial personalidade, não podia ser aquele a quem eles acudissem à procura de soluções às suas diferenças e pesares. No grande templo de Lurin, santuário para a adoração do deus sem pele nem ossos, como era descrito Pachacamac pelos seus fiéis, os incas - após assimilar este deus e o seu culto ao do Sol - realizaram obras de embelezamento, até fazê-lo quase tão belo como Coricancha, cobrindo também de ouro e prata a capela central, a do deus Pachacamac, à maneira do anteriormente feito com a totalidade do grande templo solar de Cuzco.

Pachacamac

Neste novo relato sobre a origem do império inca, se conta que Manco Capac está com os seus três irmãos, todos eles filhos do Sol: Pachacamac, uma divindade ancestral que foi incorporado posteriormente ao culto oficial inca, e que era adorado desde tempos antigos pelos povos da margem, Uira Cocha, e outro deus sem nome. O primeiro desses irmãos é, precisamente, Pachacamac, que ao sair ao nosso mundo subiu ao cimo mais alto, para lançar as quatro pedras aos quatro pontos cardeais, tomando, pois, posse de tudo o que a sua vista abarcava e as suas pedras alcançavam. Atrás dele surgiu outro irmão, que também ascendeu ao cimo por ordem do quarto e menor, do astuto e ambicioso Manco Capac, que aproveitou a sua confiança para o lançar ao vácuo e fazer-se com o poder, após ter anteriormente aprisionado Pachacamac numa caverna e visto como o terceiro, o bom Uira Cocha, preferia deixá-lo sozinho, abandonando os seus terríveis irmãos e odiando as suas manipulações por conseguir egoistamente o poder. Mas há outros relatos em que, precisamente, é o antigo deus Pachacamac a fazer de protagonista no cuidado dos humanos, como aquele que colheu o frade agostinho Calancha nos princípios do século XVII, no qual se narra a seguinte lenda: quando começou o mundo, não havia comida para o homem e a mulher que Pachacamac tinha criado; quando o homem morreu de fome, a mulher, que tinha ficado sozinha, saiu um dia desesperada para procurar as raízes das ervas que a pudessem manter com vida; chorava e gemia, queixando-se ao Sol de que a tinham feito nascer dia para depois deixá-la morrer de pobreza, consumida pelo fome.

"Sozinha vivo no mundo, pobre e aflita, sem filhos que me sigam; Tu, Sol, nos criaste, porque é que nos consumes? Como é que é possível que se Tu és quem nos dá a luz, te apresentas tão malvado e mesquinho que me negas o sustento?"

PACHACAMAC E O DEUS SOL

O Sol, movido pela compaixão, desceu à terra, pondo-se junto dela, consolou-a e perguntou a causa do seu pesar, fazendo como se nem sequer soubesse nada das suas boas razões para lamentar-se. Ela lhe contou então como tinha sido a sua pobre vida, a sua ansiedade e a sua pena; o Sol, cheio de dor, disse-lhe que arrancasse as raízes e, enquanto ela o fazia, ele furou-a com os seus raios e engendrou no seu ventre um filho. Nada mais fez o deus Sol, que pareceu contentar-se com aquela conversa com a única sobrevivente dos humanos; mas não foi assim, pois quatro dias mais tarde, para seu grande regozijo, a mulher pariu um maravilhoso homem, no qual se podia ver a sua divina origem; a boa mulher era feliz, completamente segura de que as suas penas tinham acabado e que o alimento já seria abundante. Mas não contava com a reação do seu criador, o insensível deus Pachacamac, que estava indignado porque era agora o Sol o que estava recebendo a adoração que só era devida a ele e porque tinha nascido um filho contra a sua vontade; tomou a semi-divina criatura nas suas mãos, sem ouvir os gritos angustiados da sua mãe, pedindo ajuda ao Sol, dado que o deus Sol era não só o pai daquele menino, mas o do mesmo Pachacamac; e se tomou esse menino, foi para acabar com ele, para matá-lo, trucidando depois o cadáver do inocente irmão em fragmentos minúsculos. Mas Pachacamac, para que não se pudesse contrapor a bondade do seu pai o Sol perante a sua, plantou os dentes do menino assassinado e nasceu o milho, cujos grãos parecem dentes; e plantou os ossos e as costelas do menino e nasceu a yuca, cuja raiz é comprida e branca como os ossos; e criou também os outros frutos desta terra que são raízes. Da pele da criatura saiu o pacay, o pepino e outros frutos e árvores, e assim ninguém conheceu a fome nem o lamento pela necessidade e deviam a sua subsistência e abundância ao deus Pachacamac; e a sua sorte continuou sendo tão boa que a terra continuou sendo fértil e os descendentes dos Yungas nunca conheceram os extremos da fome.

Outros percussores

Entre os grandes mitos está o de Manco Capac e a sua irmã /esposa Mama Ocllo, formando outra grande lenda sobre os precursores do império inca. Manco Capac e Mama Odeia são -neste mito- o primeiro casal de povoadores sagrados da terra, os primeiros incas que se estabelecem nela. Diz a lenda que surgiram ao mundo de cá pela pacarina privilegiada do lago Titicaca, em cuja ilha foram postos pela mão de Uira Cocha, de acordo com o que lhe tinha ordenado o seu pai, o deus do Sol. Os dois irmãos uniram-se em casamento, abrindo deste modo o ritual dos casamentos do Inca com a sua irmã Coya; Manco Capac se dedicou a fecundar a terra com um bastão de ouro que Uira Cocha lhe tinha dado e fazendo crescer as novas plantas, ia criando benefícios para a raça dos pobres mortais, para quem também ia dando forma aos rios e arroios, fazia brotar árvores e pastos e construía ricos quartos onde pudessem viver com decência: entretanto, Mama Oclla se dedicava a fazer a sua grande tarefa, dado que era ela quem ia ensinando às mulheres as artes e indústrias que lhes permitiram tirar todo o proveito possível às riquezas que o seu irmão produzia; assim, fazendo prodígios, o real casal chegou até um lugar onde, com o seu mágico bastão de ouro, apontou o centro do império, a futura cidade de Cuzco (Cosco, o centro). Mas há diferentes versões da chegada ao mundo de Manco Capac: uma delas, onde se mistura o relato de Manco Capac e Mama Oclla com o dos irmãos Ayar, faz com que Manco Capac apareça junto de outros três seres bem diferentes; já não são eles, os dois irmãos, os que vão estar em solitário à frente da criação do Império do Inca.

A rebelião humana

Como em quase todos os mitos mais elaborados da criação do homem, o não reconhecimento é o único pagamento à bondade infinita que recebe o bom deus das suas criaturas. O Universo criado por Uira Cocha não podia ser menos, e não atende a sua chamada nenhum dos recém-nascidos. O deus encontra-se sozinho e entristecido no sítio Cacha, com a triste realidade da desobediência dos seus filhos. A evidência é irrefutável e a fórmula obrigatória para dar a entender quem manda sobre o mundo tem que vir em forma duma devastadora chuva de fogo, uma ação de castigo e de purificação, que serve tanto para recordar o poder do Ser Supremo como para levar os soberbos humanos ao bom caminho. A chuva de fogo que sai das entranhas da terra através dos vulcões de Cacha faz alastrar oportunamente o temor entre os estúpidos humanos, evitando-lhes de assim que se tornem merecedores de mais e maiores castigos à sua cegueira, pois os homens, ao ver que a sua insensata e torpe conduta os levou à destruição do seu maravilhoso ambiente, viram que podiam ter perdido com ela a recém-criada vida vegetal e animal, pondo mesmo em perigo a sua própria e recente existência, e agora estão totalmente arrependidos das suas faltas para com o benfeitor deus Uira Cocha e rezam para pedir-lhe clemência, implorando-lhe também o seu perdão sem altivez, com sentida humildade. O bom deus fica contente ao comprovar que se conseguiu aquele desejado regresso ao bom caminho das suas criaturas, e termina por dar-lhes a sua muito especial lição de modéstia, dado que puderam ver como o que receberam gratuitamente também pode perder-se pela simples vontade do deus criador. Já com os humanos agrupados ao seu redor, se dirige para um lugar que se chamará Cosco (o centro, a posterior Cuzco), onde estabelece o Inca Uira Cocha o seu primeiro reinado, mas dando a um ser humano, a um dos arrependidos homens, o comando da primeira cidade e o centro do primeiro império que existe sobre o planeta, e este primeiro chefe, o primeiro Inca diretamente designado pela divindade, é o legendário Allca Huisa, que será do mesmo modo o gerador da longa e poderosa estirpe dos Incas.

A criação por Uira Cocha

Na nova lenda da criação do mundo por Uira Cocha, posterior ao primeiro mito da criação do Universo para os incas e ao qual substitui definitivamente, se dá ao deus todo-poderoso a faculdade de dirigir a construção de tudo o visível e invisível. Uira Cocha começa a sua obra nas margens do lago Titicaca, em Tiahuanaco, alçando na pedra as figuras dos dois primeiros seres humanos, dos primeiros homens e mulheres que vão ser os cimentos do seu trabalho. Uira Cocha vai situando estas estátuas e, à medida que lhes dá nome, se animam e tomam vida na escuridão do mundo primogênito, porque o deus ainda não se ocupou de dar luz à terra, unicamente iluminada pelo resplendor do Titi, um animal selvagem e ardente que vive no cima do mundo, seguramente o jaguar que se mistura com outros animais nas representações totêmicas dos incas e das culturas anteriores. Este mundo daqui ainda está em trevas porque Uira Cocha adia todo o seu labor de criação de um mundo completo, ao nascimento dos seres humanos que vão desfrutar dele.

(Tiahuanaco)
Satisfeito com os humanos, o deus prosseguiu o seu projeto, agora pondo no seu lugar o Sol, a Lua, as estrelas infinitas, até cobrir toda a abóbada celestial com a sua corte. Depois, Uira Cocha deixa atrás Tihuanaco e dirige-se para o norte, a caminho de Cacha, para, de lá, chamar ao seu lado as criaturas que ele acaba de dotar com vida própria. Ao partir de Tihuanaco, Uira Cocha tinha delegado as tarefas secundárias da criação nos seus dois ajudantes, Toca pu Uira Cocha e Imaymana Uira Cocha, que empreendem imediatamente as rotas do Este e do Oeste dos Andes, para -à sua passagem por tão longos caminhos - dar vida e nome a todas as plantas e a todos os animais que vão fazer aparecer sobre a face da terra, numa bela missão auxiliar e complementar da realizada antes pelo seu deus e senhor Uira Cocha, missão que terminam junto da margem do mar, para depois se perderem regiamente nas suas águas, uma vez cumprida a tarefa ordenada pelo deus criador principal do Universo dos incas.

O deus do Sol

Como os chibchas com Bochica, os aztecas com Huitzilopchtl, os quinches com Hun-Apu-Vuch, os quechuas do império inca tinham o deus Sol no primeiro degrau do escalão celeste, com o nome sagrado e impronunciável de Inti, embora mais tarde fosse evoluindo para uma personalidade mais complexa e universal, que terminou por absorver a divindade sem nome da criação, para dar lugar a Ira Cocha, uma abreviatura do nome completo do deus Apu-Kon-Tiki-Uira-Cocha, que é, por antonomásia, a função total do seu poder omnímodo, dado que este nome é simplesmente a enumeração dos seus poderes (supremo ser da água, da terra e do fogo) sobre os três elementos em que se baseou a criação do Universo. Este novo e muito mais poderoso deus do Sol não estava sozinho no seu reino, pois estava a sua esposa -e irmã, como corresponde a um Inca - a Lua que o acompanhava em igualdade de rango na corte celestial, sob o nome de Quilha. O Sol era representado com a forma de um elipsóide de ouro no qual também podiam aparecer os raios como outro dos seus atributos de poder, e a Lua tinha a forma ritual de um disco de prata. O Sol, como criador, era adorado e reverenciado, mas também a ele se acudia à procura do seu favor e da sua ajuda, para resolver os problemas e aliviar as necessidades, dado que só ele podia fazer nascer às colheitas, curar a doença e dar a segurança que o ser humano anseia. Naturalmente, à deusa Quilha estava adstrito o fervor religioso das mulheres, e eram elas as que formavam o núcleo das suas fiéis seguidoras, dado que ninguém melhor do que a deusa Quilha podia compreender os seus desejos e temores e dar-lhes o amparo procurado.

O mito Inca

Um dia muito longínquo, o deus sem nome refletiu sobre o fato de se devia criar um mundo. Tinha a terra, a água e o fogo e isso lhe bastava para dar forma a qualquer coisa que desejasse formar. Assim o fez, criando três planos que compunham um único Universo. No de cima pôs os deuses, que tinham o aspecto brilhante do Sol e da Lua, das estrelas e dos cometas e de tudo quanto brilha no alto, sobre as nossas cabeças. Um pouco mais abaixo, mas ainda sobre o segundo mundo, estavam os deuses do raio, do relâmpago e o trovão, do arco-íris e de todas as coisas que não têm mais explicação senão a que os deuses queiram dar. Esse terço superior se chamou Janan Pacha. No segundo mundo, Cay Pacha, o deus criador pôs os humanos, os animais e as plantas, tudo o que é vivo, incluídos os espíritos. No mundo do terceiro plano, o mundo interior, Ucu Pacha, ficou o espaço fechado e reservado para os mortos. Os três planos estavam intercomunicados, mas eram umas vias muito especiais que davam acesso a uns e a outros. Ao de cima podia aceder o filho do Sol, o Inca ou príncipe, o Intip churin; do interior se podia aceder ao de cá, através de todos os condutos naturais que se abrem do interior para o exterior, condutos pelos quais brotam as águas da terra, cavernas, fendas e vulcões, pacarinas, que eram as vias primitivas de acesso por onde chegaram os seres que deram começo à humanidade; os germes que fizeram nascer os animais e as sementes que deram vida a todas as plantas que crescem no mundo de cá. O esquema deste universo inca seria, pois, o seguinte:

JANAN PACHA

Intip churin

CAY PACHA

Pacarina

UCU PACHA

O ciclo fecha-se com este fluxo para cima, que parte do Ucu Pacha, através de uma Pacarina, para que penetrem nela os homens Ayar e, no mundo de cá, do nascimento ao império inca, com os seus fundadores Manco Capac e Mama Ocllo à cabeça de uma humanidade que, com eles no cimo, pode dirigir-se para o mundo superior, para comunicar-se com os deuses dos quais eles, naturalmente, fazem parte.

Os Incas

Só resta agora, do que devia ter sido a muito rica religião dos incas, a parte mais simples, aquela porção da mitologia que arraigou entre as gentes de baixo, aquela parte simplificada do mito e do rito que atravessou os rígidos controles do culto oficial e aristocrático e chegou às massas, ou que foi feita para a sua distribuição entre os súbditos. A estratificação da sociedade inca foi tão grande que até a tradição religiosa ficou impregnada dessa total separação entre as duas castas: na de cima, junto com o filho do Sol e os seus escolhidos, estariam os teólogos, os cronistas dos grandes acontecimentos; em baixo ficavam todos os outros, mas sem acesso nenhum ao mundo superior. Com o fim do império, com a cristianização forçada pelo vencedor, a religião inca desapareceu, ao quebrar-se o culto oficial, só ficou o que tinha encharcado os humildes, o muito ou o pouco que ainda hoje se confunde.

As Luminárias

Entre as numerosas lendas do continente africano sobressai a dos negros de Senegal, dado que talvez sejam os únicos que têm uma cosmologia digna de tal nome. As suas fábulas mostram que as duas luminárias, isto é, tanto o Sol como a Lua, eram consideradas como superiores aos outros astros. O mito cosmogônico pretende estabelecer as diferenças de ambos os corpos astrais e se propõe explicar - de uma maneira muito simples, embora carregada de conotações míticas e emblemáticas - as grandes diferenças entre a Lua e o Sol. O brilho, o calor e a luz que se desprendem do astro-rei impedem que sejamos capazes de olhar fixamente. Em compensação, podemos contemplar a Lua com insistência sem que os nossos olhos sofram mal algum. Isso é assim porque, em certa ocasião, estavam banhando-se nuas as mães de ambas as luminárias. Enquanto o Sol manteve uma atitude carregada de pudor, e não dirigiu o seu olhar nem um instante para a nudez da sua progenitora, a Lua, em compensação, não teve reparos em observar a nudez da sua antecessora. Depois de sair do banho, foi dito ao Sol: "Meu filho, sempre me respeitaste e desejo que a única, e poderosa deidade, te bendiga por isso. Os teus olhos se afastaram de mim enquanto me banhava nua e, por isso, quero que, desde agora, nenhum ser vivo possa olhar para ti sem que a sua vista fique danificada".

E à Lua foi dito: "Minha filha, tu não me respeitaste enquanto me banhava. Olhaste para mim fixamente, como se fosse um objeto brilhante e, por isso, eu quero que, a partir de agora, todos os seres vivos possam olhar para ti sem que a sua vista fique danificada nem se cansem os seus olhos".

Cidades debaixo d'água

Também havia uma bela mulher que aparecia plena de juventude e viçosidade. Chamava-se Haraké e o seu poder de atração era tal que não se sabia se era deusa ou se pertencia à espécie dos humanos mortais. A lenda mais estendida afirmava que Haraké tinha os cabelos tão transparentes como as próprias águas que lhe serviam de morada. Ao entardecer, a bela mulher tinha por costume descansar à beira do Níger, e esperar assim até que chegasse o seu amante.

Assim que este se reunia com ela, ambos entravam nas profundidades daquelas águas encantadas e profundas; a jovem levava o escolhido no seu coração através de maravilhosos caminhos que conduziam a faustosas e desconhecidas cidades. Nos seus esplêndidos recintos, e entre o som do tam-tam e dos tambores, teria lugar a ostentosa cerimônia que uniria o feliz casal para toda a vida.

Todas as narrações da fábula exposta sublinham que foi Haraké quem conduziu o seu amante, e não vice-versa. Com isso se quer dar a entender que a mulher era muito respeitada entre certas tribos da África negra. Os seus privilégios provinham da sua consideração como mãe e esposa.

Pequenos gênios e gigantes

A variedade de lendas da África negra é devida à diversidade de tribos que a habitam. Em muitas populações tinha-se em grande estima o ancestral dos seus antepassados e, ainda que o seu território fosse invadido por outros povos de costumes e ideias diferentes, nunca deixaram que os seus ritos e mitos se perdessem. É o caso de algumas tribos de pescadores e camponeses que moravam nas proximidades do Níger, que viram invadida a sua própria idiossincrasia por outros povos, especialmente muçulmanos. No entanto, as crenças e a força dos seus mitos quase não perderam personalidade. Continuaram adorando os espíritos e GÊNIOS que moravam na natureza e que se tornava necessário aplacar, e manter contentes, para que as colheitas não se esgotassem e para que a pesca fosse abundante.

O ar, a terra e o rio estavam cheios de espíritos - o que implica o conceito animista que tinham os negros africanos da natureza - aos quais se acudia, e se invocava, quando se necessitava de uma ajuda superior. Havia também certas lendas onde aparecia o polífago gigante Maka que, para satisfazer o seu voraz apetite, necessitava devorar animais tão enormes como os hipopótamos; e quando se dispunha a saciar a sua sede, alguns dos lagos próximos se viam seriamente afetados.

Costumes ancestrais

O longo caminho da hominização não foi, no entanto, tão linear como pode parecer à primeira vista. Muitos horrores, que o acesso das civilizações iria corrigindo, marcaram o tempo e o espaço históricos. Algumas das tribos que povoam os territórios do ocidente africano conservaram, até épocas muito recentes, costumes que têm muito pouco que ver com o programa social e político de outros grupos humanos.

A este respeito, o grande investigador Frazer, na sua qualificada obra A Rama Dourada, repete as seguintes palavras que um missionário deixou escritas - quando já o século XIX chegava ao seu fim - depois de conviver com algumas tribos da África negra: "Entre os costumes do país, um dos mais curiosos é indubitavelmente o de julgar e castigar o rei. Se ele mereceu o ódio do seu povo por exceder-se nos seus direitos, um dos seus conselheiros, sobre o qual recai a obrigação mais pesada, requer ao príncipe que vá dormir, o que significa simplesmente envenenar-se e morrer".

Ao parecer, no último momento, alguns monarcas não estavam dispostos a tirar-se a vida de um modo tão expeditivo, o qual era interpretado pelos súditos mais chegados como uma falta de coragem. Então, pedia-se a ajuda de um amigo que, no instante supremo, se encarregaria de dar-lhe um último empurrão, por assim dizer; o importante era que o povo não chegasse a conhecer a falta de coragem do seu soberano. Quanto ao método escolhido para levar a cabo tão abominável magnicídio, se louvava a sua predisposição e se agradecia o serviço prestado à sua tribo.

A nossa história

Hoje, em consequência das escavações e estudos que se levam a cabo em toda a África - muito especialmente em zonas que, até o presente e não se sabe com que critérios, tinham sido relegadas - se detectaram provas suficientes para concluir que foi neste território onde começou o processo de hominização. Em qualquer caso, os achados dos especialistas e investigadores nos levam a concluir que a África foi um dos mais importantes focos de cultura pré-hominídea. Os elos da cadeia que nos une aos nossos mais ancestrais antepassados se encontram no continente negro. Outro fator a ter em conta, no momento de julgar o escasso avanço dos estudos levados a cabo no continente negro, é aquele que se refere às condições adversas do seu solo; a acidez do solo africano desgasta com prontidão qualquer vestígio, especialmente os restos fósseis. No entanto, hoje se sabe que foram os primeiros hominídeos do continente africano os que, devido às suas peculiaridades físicas e somáticas - por exemplo a sua pele sem pêlo, a sua produção de melanina que lhes dará a adequada pigmentação, a sua abundância de glândulas sudoríparas, o seu cabelo encaracolado, etc. - iniciaram o denominado processo de adaptação ao meio, com o qual começará, sem nenhuma dúvida, a hominização propriamente dita. A importância deste processo é capital, pois num princípio, o hominídeo se caracteriza pela sua atitude prática, dado que pretende primordialmente construir toda uma série de artefatos que o levam a dominar as técnicas da pesca, a caça e a agricultura. Como para isso deve contar com ferramentas diversas, transforma-se em "homo faber" e "homo habilis", daqui a constituir o nosso seguro antepassado, o "homo sapiens", há apenas uma mínima distância.

O berço do "AUSTRALOPITHECUS"

A figura de um pai protetor e poderoso também aparece entre os povos africanos. E, com respeito à sua cosmologia, numerosas lendas marcam a própria idiossincrasia das diferentes tribos. Todos os povoadores da África negra julgaram que a terra não tinha idade e que existia desde sempre.

E, segundo opinião de muitos historiadores insuficientemente documentados, isto é, que baseavam mais os seus acertos e conclusões em fátuas declarações de eruditos pensadores do que no trabalho de pesquisa e estudo pessoais, se chegou a dizer que os africanos formam parte dos denominados "povos sem história". O qual quer dizer que não contribuíram para o desenvolvimento da humanidade, nem muito nem pouco; e que, entre os negros africanos foi desigual a sua evolução e, com certeza, nenhum criou uma cultura autóctone que o caracterize. No entanto, descobrimentos arqueológicos de grande importância - entre outros, o do primeiro hominídeo conhecido com o nome de "australopithecus", pois os seus restos foram achados, há pouco mais de meio século, concretamente no ano 1924, na zona austral do continente africano - assim como o profundo estudo das inumeráveis mostras de arte rupestre que se encontram em toda a África, levaram a reconsiderar os errôneos critérios que se tinham até a muito pouco do continente negro.

Mito da Criação

Muitos povos africanos contam também com numerosas lendas para explicar a origem da espécie e, ao mesmo tempo, elaboraram curiosos mitos sobre a criação do primeiro homem e da primeira mulher. A narração dos fatos aparece repleta de inventiva e fantasia:

Houve um tempo em que o ser superior Mulukú - nas populações centro-africanas, a deidade suprema era conhecida com o nome de Woka - se propôs fazer brotar, da própria terra, o primeiro casal do qual todos descendemos. Mulukú, que dominava o ofício da sementeira ou, melhor, era o semeador por excelência, fez dois buracos no chão. De um surgiu uma mulher, do outro surgiu um homem. Ambos gozavam da simpatia e do carinho do seu criador e, pelo mesmo motivo, decidiu ensinar-lhes tudo o relacionado à terra e o seu cultivo. Proporcionou-lhe, além disso, ferramentas para cavar e abrandar o chão e para cortar, ou podar, árvores secas e cravar estacas. Pôs em suas mãos sementes de milho para semear na terra e, enfim, mostrou-lhes a maneira de viver por si próprio, sem dependência alguma de quaisquer outras criaturas.

No entanto, conta lenda que o primeiro casal da nossa espécie desatendeu todos os conselhos que a deidade tinha dado e que, pelo mesmo motivo, abandonaram as terras, que terminaram convertendo-se em baldios e campos ermos. E, assim, o primeiro casal consumou a sua desobediência, com o qual o seu criador os transformou em macacos. O mito - ou, por melhor dizer, a fábula - relata que Mulukú enfureceu e arrancou a cauda dos macacos para a pôr à espécie humana. Ao mesmo tempo ordenou aos macacos que fossem humanos e aos humanos que fossem macacos; depositou nestes a sua confiança, enquanto a retirava aos humanos. E disse aos macacos: "Sejam humanos". E aos humanos: "Sejam macacos".

Zonas de refúgio

Dos grupos étnicos, firmes expoentes da negritude, é necessário destacar: os bantus e os negros sudaneses. Apesar de certas diferenças, devidas mais a determinadas circunstâncias históricas do que à vontade dos protagonistas, ambas as etnias mantêm a sua unidade cultural e lingüística. A raça bantu é originária dos grandes lagos africanos e não se viu misturada com outros grupos, tais como os bereberes islamizados, mouros ou quaisquer outros povos de tradição islamita-semita.

Os bantus regiam-se por monarcas que pretendiam, em todos os casos, conseguir a paz para o seu povo.

Eram denominados "kakabas" e a relação com o resto da população, ou com outros territórios circundantes, não se fazia diretamente, senão que utilizavam tambores para se comunicarem. Também, segundo as proporções do som ou as variações do ritmo dos tambores, se podia deduzir o poder dos reis bantus. Os tambores - alguns tinham até dois metros de raio - depositavam-se no interior de lugares sagrados e templos.

Quem os guardava e se encarregava de tocar formava uma casta privilegiada e eram muito considerados pelas tribos e reinos dos grandes lagos. Atualmente, os bantus encontram-se assentados na ilha de Madagascar e, na opinião de etnólogos e geógrafos, devem considerar-se "fora do continente negro". Considera-se os pigmeus como descendentes dos primeiros povoadores do continente africano. “Permanecem nas "zonas de refúgio”, constituídas por extensas terras selvagens, onde a água da chuva se mantém no mesmo lugar onde caiu para, assim, formar uma imensa selva virgem, uma selva-esponja, saturada de água, com os maciços espessos de árvores gigantes, com o monte escuro e silencioso, resistente a qualquer roturação, hostil ao estabelecimento humano e, inclusive, à circulação, salvo a que se faz pelos rios; região de vida precária, isolada, baseada na pesca e na caça".

Artesões e Ferreiros

Tudo o que se acaba de dizer serviu para que alguns investigadores exprimam, com contundência, as suas teses favoráveis a provável influência das grandes civilizações norte-africanas sobre as culturas desenvolvidas no mundo negro e sobre a sua estrutura social. Alguns achados relevantes vêm avalizam a tese exposta. Por exemplo, encontraram-se pérolas de vidro egípcio em áreas do território do Gabão, e também pequenas representações e efígies do deus Osíris em zonas situadas ao sul do rio Zambeze e nos territórios do oriente do Congo. Talvez tudo isso não signifique uma prova concluinte da incidência da civilização egípcia no mundo negro, mas, no entanto, se abrem expectativas pelas quais pode afirmar-se que, no campo artístico e técnico, existiu certa relação; o caso mais claro é a utilização, por ambos os povos, da técnica da fundição com cera. Não obstante, já desde o ano 3000 (a.C), as tribos da zona do Níger, por exemplo, conheciam a metalurgia do ferro e, desde épocas muito remotas, já tinham formado uma espécie de grêmios, ou sociedades de ferreiros, que se constituíam em castas e trabalhavam o estanho e a metalurgia do ferro.


O Sul

A região situada mais ao sul do lugar de assentamento dos egípcios era denominada por estes com o nome de "Kus"; os nativos desta zona tinham a pigmentação da sua pele mais escura do que os do norte, pois eram de raça negra. Tinham estabelecido a capital de toda a região numa zona muito próxima a um enorme canto do rio Nilo e, no seu subsolo, se encontravam as mais fabulosas reservas de ouro de todos os tempos.

Esta capital recebeu o nome de Napata e teve dirigentes que a fizeram crescer tanto, até ao ponto de que o próprio Egito foi submetido. As margens do Nilo também foram conquistadas pelos reis de Napata. Naquele tempo - há quase três mil anos - toda a extensa ribeira de ambos os lados do Nilo estava formada por vales e pastos sempre férteis; atualmente há grandes zonas ermas e terrenos baldios.

A riqueza da população da zona do Kus - os "kusitas" - se viu incrementada pelo descobrimento, no subsolo mais próximo da cidade de Napata, de grande quantidade de mineral de ferro. A tudo isso há que acrescentar, além disso, as produtivas transações de marfim que os povos limítrofes lhes forneciam.

Mas este grande império "kusita" encontrava-se submetido à rapina e ao furto de numerosas tribos nômades.

Já desde o século III, antes da nossa era, os ladrões assaltavam as caravanas "kusitas" que transportavam ouro e marfim pelas rotas comerciais abertas para o efeito.

O resultado final é que o imperador do poderoso reino de "Axum", situado mais ao sul, nas proximidades da meseta da Etiópia, submeterá todas as populações do "Kus" e se apropriará das suas ricas minas de ferro e ouro.

Forças poderosas

Recentes escavações deixaram ao descoberto figuras de terracota - como as achadas na zona de Nok (Nigéria) - cuja antiguidade se remonta a quase dois mil quinhentos anos. Algumas destas estátuas estão realizadas de tal modo que a cabeça é muito maior do que o corpo; semelhante desproporção era uma característica dos artistas africanos e com isso queriam dar a entender que não só representavam seres humanos, mas também que a sua arte pretendia chamar a atenção sobre certa classe de significação simbólica, afastada de qualquer naturalismo.

Neste sentido, o achado das denominadas "figuras de Jano" - chamadas assim porque recordam a deidade romana Jano, que aparecia representada com duas cabeças contrapostas, dado que personificava a vigilância e a custódia - realizado no vale de Taruga, é um claro exemplo cheio de conotações míticas e emblemáticas. Além disso, algumas das estátuas encontradas na aldeia de Nok representam, e simbolizam as forças sobrenaturais e poderosas que apareciam relacionadas com a produção de alimentos e a satisfação das primeiras necessidades.
(esculturas de terracota de Nok)

Outros achados, nos quais apareciam até média dúzia de cabeças de terracota, foram relacionados com a existência de santuários, templos ou lugares de culto e rito nos bosques considerados, pelo mesmo motivo, como sagrados.

Afirma-se, além disso, que "a técnica da fundição guarda certa relação mítica e ritual com as figuras de terracota dos fornos do vale de Taruga".

Acontece a mesma coisa com a arte estatuária de Benin, que conseguiu a sua plenitude entre os séculos XI e XV da nossa era. "Nesse sentido as figuras de animais, como o leopardo, simbolizam o poder dos seus reis que, às vezes, portavam máscaras realizadas em marfim, as quais levavam incrustadas, por sua vez, pequenas figurinhas dos colonizadores europeus com o objeto de apropriar-se do seu saber e a sua inteligência e, deste modo, não serem dominados por eles".

Os povos africanos tinham para com os fenômenos naturais, o Sol, a Lua, as estrelas, as montanhas, os rios, mares e árvores, um certo respeito sagrado. Tudo estava personificado e vivo - do mesmo modo - e, por todos os lados surgiam ídolos, fetiches, talismãs, bruxos, feitiços e magos.

O primitivismo das lendas dos povos da África meridional entronca com uma espécie de animismo, que os faz adorar as árvores porque pensavam que, num tempo muito longínquo, foram os seus antepassados. Sucedia a mesma coisa com os animais; acrescentando-se, além disso, que eram associados com esoterismo que conduzia à crença de que os mortos apareciam aos vivos, precisamente, em forma de animais. O culto aos mortos encontrava-se muito estendido e se considerava obrigatório fazer-lhes oferendas. Deste modo, a morte que sempre era tabu - isto é, algo que não devia mencionar-se nem citar-se, pois, caso contrário, poderiam sobrevir terríveis castigos aos infratores de tais preceitos - adquiria uma importância capital entre os componentes duma determinada tribo e o seu modo de comportar-se. Quando alguém morria, todos os outros abandonavam o lugar de questão, para que a desgraça não os alcançasse como ao finado. São muito freqüentes, de resto, as lendas sobre a morte, e existem vários mitos acerca da origem de tão tremendo mal em algumas das tribos africanas da zona que estamos descrevendo.

No vale do rio Níger, o fetichismo encontra-se muito estendido e, entre os seus povoadores, surgem muitos magos e feiticeiros que são os encarregados de dirigir o culto ao ídolo e de oferecer-lhe os diferentes sacrifícios; também têm o dom de predizer o futuro e de pronunciar oráculos.

Uma nova terra

Os povoadores das zonas desérticas estenderam-se, e emigraram, para o norte, o sul e o este. No seu afã de procurar uma nova terra onde lançar raízes, por assim dizer, toparam com outras tribos que, desde épocas remotas, habitavam nas zonas tropicais do continente africano.

Ante a ausência de provas fidedignas para catalogar com exatidão os diferentes povos que se achavam disseminados por terras africanas, se avançaram hipóteses que afirmam que existiram tribos primitivas "paleo-negríticas" que praticavam a caça e conheciam técnicas rudimentares para trabalhar a terra; especialmente se esforçavam em conseguir que o terreno pobre e ermo de zonas extremas e montanhosas chegasse a ser fértil. Para isso contavam com o conhecimento do cultivo intensivo, mediante o qual conseguiam, além do total abastecimento de todos os tipos de produtos hortícolas, algo mais importante, a saber: a coesão social necessária para tornar possível o auge populacional e, além disso, o assentamento definitivo numa determinada zona; deste modo chegariam à formação de núcleos ou grupos sociais com uma densidade de quase cinqüenta habitantes por quilômetro quadrado.

Alguns destes grupos populacionais ocuparam a região norte do território africano, lugar próximo da ribeira oriental do Nilo; tal é o caso da tribo dos dogones, que se caracterizava porque entre os seus membros e a própria envolvente geográfica se estabeleceu um vínculo tribal difícil de quebrar.

Também o grupo dos bassari é outro dos denominados "povos nus" da África, os quais se encontravam espalhados por diferentes zonas. A sua antiguidade se remonta a perto de seis mil anos e terminaram assentando-se na Guiné. Na Costa de Marfim se estabeleceram os "lobis". Os "sombas" ocuparam a região de Togo. E as terras de Nigéria viram-se povoadas por tribos de "angus" e "fabis". Todos os grupos enumerados foram conformando as grandes zonas étnicas da África.

Mas também nos territórios desérticos e nas zonas equatoriais se foram assentando populações de tradição étnica como os "mandinga" e os "bambara". Também os "yoruba", em união dos "hausa" e os "ibos", se iriam assentando pela zona da Nigéria até se constituírem na massa de população mais rica de todo o continente africano.

Segundo os pesquisadores, as diferentes tribos apontadas mantinham entre si uma clara diferenciação social e sucedia a mesma coisa no terreno político ou religioso.

A autonomia estava garantida, assim como os costumes milenários de cada tribo e a sua idiossincrasia própria. A variedade de crenças, de história, de lendas e de mitos, que confluem nas mencionadas populações, faz com que o continente africano se mostre muito atraente e interessante. Acrescenta-se a tudo isso que foi na Núbia - território situado no fértil, e maravilhoso, vale do Nilo - onde teve a sua origem uma das primeiras civilizações do continente africano, que recebeu precisamente o nome de civilização dos núbios - na atualidade quase toda a zona é território sudanês - que provinha provavelmente da Ásia, dado que a cor da sua pele era muito similar à dos povoadores desse continente e, durante um milênio, manteve todo o seu esplendor.

Negros Africanos e seus Mitos

Para a melhor compreensão do mundo negro, é necessário conhecer os seus aspectos geográficos e físicos, dado que ambos incidem substancialmente sobre o aspecto histórico e até o determinam.

Isso leva a considerar o continente negro como um espaço fechado, no qual os seus povoadores rejeitariam qualquer tentativa de influência alheia a eles; com o qual se encontrariam destinados a certa classe de impenetrável ostracismo étnico. Não obstante, os diferentes povos e tribos que se encontravam espalhados pelo território africano, certamente tinham limitado o seu espaço por uma espécie de muro de areia que apontava, de forma expeditiva, para a fronteira norte da África negra: tratava-se do hoje célebre deserto do Saara.

Mas isto nem sempre foi assim, dado que essa franja desértica denominada "deserto do Saara" era antes um verdadeiro vergel, pleno de abundante vegetação, com árvores e prados, planícies e colinas. Mas isso sucedeu há já seis mil anos, quando já em outras zonas da África os primeiros hominídeos tinham deixado gravados - nas paredes rochosas das covas que usavam para abrigar-se - signos carregados de simbolismo emblemático e pinturas esquemáticas, cujo valor como documento social, político, ritual e estético é incalculável.

Essa espécie de jardim natural, que foi o atual deserto do Saara, foi assolado por uma grande seca que teve a sua origem quatro milênios antes da nossa era. A grande dissecação durou quase dois mil anos e as conseqüências diretas dos seus efeitos estão aí, nessa enorme franja deserta que se estende do ocidente para o oriente na zona norte do continente africano e que, segundo alguns historiadores, constitui o limite que a própria natureza impôs ao mundo negro.

Já em tempos das glaciações, nos finais do período terciário - há aproximadamente seiscentos mil anos - o território africano tinha sido lugar de residência dos primeiros hominídeos. Em algumas partes da sua zona sul encontraram junto de utensílios de pedras sem lavrar e pedras rodadas ou eólitos, restos humanos de grande antiguidade. Também se conseguiram dados e provas que permitiram aos especialistas e investigadores afirmar que aqueles primeiros hominídeos conheciam o fogo. Essas zonas africanas estão consideradas, na atualidade, como centros de importantes achados pré-históricos.