O dualismo de Mani

Com a inegável base da dualidade entre Ahura e Ahriman, com as aportações dos hereges Marção e Bardesanes, com a herança gnóstica da iluminação interior, Mani constrói a sua teoria religiosa dos dois princípios e os três momentos, na qual se funda todo o seu credo. Mani diz que há duas substâncias antagônicas, a Luz e a Escuridão, os dois princípios que nunca foram criados e que sempre existiram, eternos e iguais, que vivem em duas regiões separadas do infinito. O reino de Deus, o da Luz, se encontra no Norte, no Este e no Oeste; o reino do mal está no sul, talvez porque ao sul de Pérsia esteja somente o deserto da Arábia e a solidão do mar, e que nas outras três direções, pelo contrário, se encontre o mundo habitado e habitável. Deus, a Luz, é o Pai de Grandeza; o mal é o Príncipe das Trevas. No mundo do Pai de Grandeza reinam as quatro notas harmoniosas da paz, a pureza, a doçura e a compreensão; no mundo do Príncipe das Trevas só há os quatro vícios da desordem, a estupidez, a abominação e a hediondez. Por sua vez, o mundo do Pai de Grandeza compreende cinco moradas: entendimento, razão, pensamento, reflexão e vontade, habitadas por inumeráveis leões, criaturas do bem. Antagônico em tudo, o mundo do Príncipe das Trevas é um poço onde se encontram, um sobre outro, os seguintes estratos de fumo, de fogo que consome, de vento destrutivo, de lodo e de escuridão, nos quais se encontram os cinco Arcões, chefes de cinco classes de repulsivas criaturas infernais. Pois bem, estes dois mundos separados foram no PASSADO, quando estavam bem afastados, na sua estrita dualidade, as substâncias: Espírito e Matéria, Bem e Mal, Luz e Escuridão. No tempo MÉDIO, misturaram-se as substâncias numa confusa amalgama, mas o Pai de Grandeza não abandonou a sua obra e lutou pelo resgate da verdade, por isso nos resta a grande esperança do FUTURO, quando a força do Pai de Grandeza restabelece a dualidade primordial e se voltam a separar as substâncias nos seus respectivos domínios; estes são, pois, os três momentos que aponta a doutrina do maniqueísmo, os três momentos que, junto com os dois princípios, são o dogma único no que tem que acreditar aquele que queira, de verdade, a salvação eterna da sua alma.

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