Sioux

Contam as lendas sioux que Ictinike, filho do deus do Sol, tinha ofendido o seu pai e por isso foi expulso das regiões celestiais; era um jovem tão batoteiro e tão sem palavra que foi ele quem ensinou aos homens toda a maldade, até o ponto de ser chamado Pai da Mentira. Para a tribo omaha, Ictinike também tinha ensinado a guerra aos humanos e, por isso mesmo, era considerado como deus dos homens em armas. Dele se contavam fábulas a favor e contra a sua astúcia, era associado com os correspondentes animais totêmicos, como o coelho, o castor, o abutre, a águia, a rata, o martim pescador, o esquilo, etc., e dessas fábulas se extraíam as correspondentes lições morais.

Também os sioux tinham as suas lendas de heróis, como a vingança de Wabaskaha, a história de Pena branca, o matador de gigantes, a história do Coelho e as muito abundantes de espíritos-serpentes, como os vinte homens-serpente, a do monstro-serpente, a da esposa-serpente, etc., mas a sua cosmogonia se limita a um relato ancestral de um povo subterrâneo, que subiu pelas raízes de umas vinhas até ver o maravilhoso mundo exterior. Ao conhecer-se a notícia, todos trataram de alcançá-lo, mas a raiz cedeu e só a metade chegou ao mundo de fora. Após a morte, os bons poderão chegar àquela povoação submersa e os maus ficaram pelo caminho.

Também não é muito rico o acervo mitológico dos caddoans, um grupo onde se encontra a famosa tribo dos Pawnee. Destaca-se a figura de Atius Tiráwa, o grande espírito criador e chefe dos astros e das estrelas, e contam histórias de animais simbólicos, como a do caçador desposado com a mulher-búfalo para converter-se no herói que assegurou abundante alimento para sempre aos Pawnee, ou a do sábio e bom homem-urso, um jovem que admirava os ursos desde a sua infância, mas que já adulto, foi morto numa emboscada dos seus inimigos sioux, e foi logo ressuscitado e cuidado por uma ursa que reconheceu aquela criatura amiga. Curado, o jovem regressou para a sua tribo, não sem fazer com que os seus irmãos apreendessem a sabedoria do urso e pudessem seguir o seu exemplo de grande guerreiro. Esse é o dom que a nação Pawnee recorda com a sua dança ritual do urso.

Iroqueses


Os temíveis e sóbrios iroqueses, entre os quais se encontram as famosas tribos guerreiras Mohawk, Cherokee, Hurones e Senecas, à parte desse caudal comum de lendas de animais e espíritos benignos e malignos, se distinguem pelas suas lendas de heróis semi-históricos, começando com os mais imaginários Hi'nun, deus do trovão e o seu irmão Vento do Oeste, os vencedores dos gigantes de pedra, e chegando aos hipoteticamente reais Atotarho, o sanguinário, astuto e poderoso mago, e o primeiro chefe Hiawatha (Hai), da tribo dos Mohawk por adoção, e da tribo dos Onondaga por nascimento, possível precursor, nos inícios do século XVI, da Kayanerenh Kowa (grande aliança) das Cinco Nações. Mas Atotarho, o vitorioso e forte chefe Onondaga, também era tão cruel que tinha conseguido atemorizar não só as tribos vizinhas, mas muitos dos seus guerreiros, como foi o caso do próprio Hiawatha, que estava farto de tanta dor e de tanto ódio e procurava sem cessar a saída pacífica àquela situação, até propor uma confederação que supusesse a paz para os seus povos e uma arma de dissuasão perante os inimigos. Hiawatha prosseguiu os seus esforços apesar da oposição de Atotarho, que o pressionava, mas Hiawatha saiu do seu povo e procurou refúgio entre os Mohawk, encontrando no seu chefe Dekanewidah o apoio necessário para iniciar a Kayanerenh Kowa, oferecendo depois ao perigoso rival, o vaidoso Atotarho, a chefia da coligação, contando com que a sua soberba o levaria a aceitar o mandato de paz, vencendo a sua resistência a abandonar para sempre a luta com as outras tribos, como assim se conta que foi.

Mitos Algonquinos

Perante os excessivamente frugais Atapascan, a nação Algoquina exibe uma mitologia muito mais rica e extensa, começando pela curiosa figura dual de Gluskap, o astuto deus (o seu nome significa "mentiroso") irmão gêmeo de Malsum, o lobo. Enquanto Gluskap começou a demonstrar a sua bondade criando o sol e a lua, dando forma e vida aos animais da terra, aos peixes das águas, pondo finalmente nesse mundo fértil e próspero os seres humanos para que desfrutassem de tudo isso; pelo contrário, o perverso Malsum criava ao mesmo tempo uma geografia difícil para o homem, cheia de elevadas montanhas e profundos vales, punha as serpentes e as bestas na terra, para que atacassem os homens e os seus animais, e não parava de fazer tudo o que pudesse ser um obstáculo na felicidade humana. E o perverso Malsum conheceu do seu bom irmão qual era o único modo de matá-lo: ser tocado pela pena duma coruja ou pelo rebento de um junco. Aproveitando o seu sono, Malsum matou Gluskap, mas só por um momento, porque o bom Gluskap voltou imediatamente à vida. Depois Malsum voltou a tentar o assassinato do irmão, desta vez com um rebento de junco, mas Gluskap renasceu de novo e, assim, uma e outra vez, até que o bom irmão se fartou da maldade do lobo e o atacou com a raiz de um feto, a maneira mágica de acabar com Malsum, terminando deste modo com a sua incessante e nociva maldade.

Tribos do Norte


Ao sul dos territórios esquimós, mas no extremo norte da América, entre as tribos da nação Atapascan, em lugar de teogonia grandiosa, bem definida, se contavam lendas fragmentadas, como a de uma raça de seres sobrenaturais, nascidos entre os mortais e que ainda viviam entre eles, mas que só se exprimiam através dos bruxos. Esta raça se originou de um modo mágico, na névoa das montanhas, entre um grupo de dez irmãos purificados através do fogo que os levou à Terra das Almas, ao qual se uniu uma mulher, a irmã sobrenatural, queimada acidentalmente pelo fogo, para aumentar a espécie dos seres semi-divinos que favoreciam os que mereciam o seu auxílio. O mesmo povo índio contava que o deus do céu, Sinh, tinha nascido duma pequena concha jogada pelo mar à praia; que lá foi recolhido e criado por uma boa mulher e que, em prêmio à sua bondade e carinho, a mãe adotiva converteu-se, quando teve lugar a transfiguração do seu filho, em deusa dos ventos favoráveis. Naturalmente, em tais latitudes, os ventos frios do Norte eram por sua vez espíritos malignos e, em contraposição, o deus Sinh, azul como o céu limpo dos dias tranqüilos e a sua boa mãe adotiva, eram os amigáveis espíritos que ajudavam os humanos na sua vida diária. A tribo dos chinook contava as histórias do irônico Corvo azul, uma ave totémica, e a sua irmã Ioi.

O Corvo azul teve um papel muito complicado para interpretar maliciosamente tudo quanto a sua irmã Ioi lhe aconselhava fazer, e ela gostava de contar mentiras; do que se contava sobre este par de corvos, nas suas andadas com os sobrenaturais e nas suas aventuras no país dos mortos, no das sombras, dos seus erros, das suas ousadias e dos seus contínuos tropeços com outros animais totêmicos, como o castor, o urso preto, a pega, o pato, a foca, etc., emanava a correspondente série de fábulas morais.

Divindades do Mar

Sedna, uma das encarnações da deusa eterna do mar, é o outro dos grandes mitos esquimós, o mito sobre a superfície do mundo onde vivem. Trata-se da lenda de uma virgem que tutela as águas do mar e todos os seres que nelas vivem. Sedna ouviu da margem a doce voz de um muito atraente e desconhecido jovem, que a chamava da sua embarcação.

Sedna se afeiçoou imediatamente por ele, jogando-se ao mar, enlouquecida pelo seu encanto; mas o jovem não era real, era apenas um espírito perturbador que queria apoderar-se, através da suposta forma humana, do amor e da vontade da ingênua donzela. Ao conhecer Sedna o engano, tentou safar-se daquele espírito que ela julgava malvado, dado que tinha torcido o seu desejo de permanecer toda a sua vida sem desposar homem algum; também o pai da donzela tentou libertá-la daquela posse e lançou-se à sua procura através do mar, até dar com ela e conseguir o seu resgate; mas o raptor também lutou para prevalecer sobre a vontade de pai e filha, lançando-os no meio de um mar que se levantava tempestuoso. Tão perdido se encontrava o pai que preferiu morrer junto da sua Sedna para salvar a honra familiar, mas a filha negava-se a morrer e tratava desesperadamente de agarrar-se à barca, enquanto o pai forçava Sedna, cortando-lhe uma e outra vez os dedos da mão com que tentava aferrar-se à vida, até conseguir afundar a sua infeliz e querida Sedna, para libertá-la -com a morte- do engano daquele espírito. Desses dedos sacrificados para preservar a virgindade de Sedna contam os esquimós que nasceram as espécies marinhas que lhes forneçam a carne e a gordura para o seu alimento, a pele para o seu vestido e os tendões para armar as suas construções; também se diz que no fundo desse mar vivem para sempre pai e filha, velando pelo mar e por todos os animais que nele se multiplicam para dar vida ao seu povo.

Ao norte do continente


Os esquimós converteram-se num grupo individualizado por duas causas: primeiro pela sua origem européia, diante do asiático e minoritariamente polinésio dos povoadores da América, e depois, pelo seu total isolamento geográfico. A mitologia esquimó, estancada na sua envolvente física, guarda certos laços de união com o mito lapão, tanto pela sua origem comum como por ter que servir um povo enfrentado à mesma e hostil natureza. Dado que se trata de uma civilização muito primitiva, andada no nomadismo pelos imperativos geográficos, onde a subsistência provém exclusivamente da captura de presas vivas, da pesca e a caça, é completamente lógico que o seu panteão só faça referências a divindades que vivem entre as águas semi-geladas, ou que habitam no céu, aquelas que podem intervir nos fenômenos celestiais. As forças celestiais que cuidam, ou das quais há de se proteger, começam no casal de irmãos composto pela deusa do Sol e o poderoso deus da Lua, que têm a mesma personificação sexual que os dois deuses da mitologia germânica, embora gozem de uma maior importância e de maior poder do que os seus homônimos nórdicos. Segundo o mito, os dois irmãos sentiram desde o princípio dos tempos a necessidade de amar-se, e assim o fizeram mais de uma vez na escuridão da longa noite polar, mas o medo de que o seu amor culpado fosse descoberto inquietava-os constantemente, fazendo-os fugir e procurar-se ao mesmo tempo, numa corrida ao redor do firmamento que só cessa quando, se unem em eclipse, mas mantinha igualmente o mito de que também não era possível o encontro entre os dois irmãos, dado que a deusa do Sol está a uma altura muito maior, numa esfera do céu que o impotente deus da Lua nunca pode alcançar, por muito que corra atrás dela.

Outras divindades

Tlaloc, seguidor de uma das divindades pré-clássicas da chuva, o deus da serpente e, muito especialmente, do deus Chac dos maias, é uma das divindades mais antigas do panteão azteca. Tlaloc, como antes tinham feito Cocijo ou Tzahui, é o ser que se ocupa da tutela da água, o deus que pode fazer com que os campos floresçam e a vida possa continuar eternamente. Tlaloc, como antes Chac, era associado com os quatro pontos cardeais e com as quatro cores que os representavam, morava nas alturas das montanhas, velando pelas nuvens que nelas se formavam e nos templos estava no mesmo nível que o grande Huitzilopochtl. Como é natural, o ritual religioso de Tlaloc exigia o sacrifício de vítimas humanas, mas, talvez pela tremenda necessidade que a povoação tinha de aceder a essa água tão necessária, a exigência multiplicava-se, dado que eram os meninos recém-nascidos os que deviam servir de veículo de satisfação para o deus da chuva.

Ao lado de Tlaloc estava Chalchihuitlicue, a deusa do jade e da turquesa, cores das águas, era geralmente considerada sua esposa, e ela velava pelos rios e arroios, pelos poços e lagoas, sendo outra divindade agrícola da fertilidade. Chicomecoalt, a irmã de Tlaloc, outra divindade dos campos, amparava o milho, tendo uma especial personificação como deusa do milho que floresce, sob a denominação de Xílonen. Mas não era a única divindade do milho, o alimento mais importante dos aztecas, dado que junto dela está o casal formado por Cinteotl e a sua esposa Xochiquetzal, com os quais velava, por extensão, pelo bom fim de todos os cultivos. Finalmente, a deusa Tlazolteotl, por ter sido esposa de Tlaloc ao princípio, e depois do temível Tezcatlipoca, era a complexa divindade que presidia o amor entre os humanos, a deusa do amor carnal, por uma parte, e que depois se encarregava de ouvir as confissões que os fiéis faziam das suas faltas, para vigiar o cumprimento das correspondentes expiações correspondentes a essas faltas.

Quetzalcóatl

A figura de Quetzalcóatl também aparece muita destacada no mito Azteca, porque se trata do deus que se sacrifica pelos humanos para devolver-lhes a terra, entregando-se ele e o seu duplo, o seu nahual, ao reino dos mortos. Quetzalcóatl gozava da simpatia dos seus fiéis, dado que ele era o criador das artes e das indústrias, a divindade encarregada de fazer chegar tudo o que o ser humano tinha a seu favor, embora também fosse tratado como uma divindade temível, dado que se lhe devia sacrificar um belo escravo, comprado quarenta dias antes da festa do deus; do seu corpo se apoderavam os mais ricos comerciantes, dado que essa carne santificada também era manjar ritual. Mas, à parte dos sacrifícios de sangue, tão intimamente unidos com a religião azteca, o bom deus Quetzalcóatl, enfrentado a Tezcatlipoca, que tinha introduzido entre os habitantes da cidade de Tula a maldade e o vício, termina por ter que abandonar a sua própria terra, na qual os povoadores já tinham sofrido o castigo à sua desobediência, para sair para o mar, não sem antes prometer regressar algum dia glorioso, dia que se esperava ativamente, com uma sentinela constante das costas por onde se sabia que Quetzalcóatl regressaria para trazer só o bem ao seu povo. Tal foi o mito, e Hernan Cortês, informado da sua existência, aproveitou a firme crença da povoação azteca para apresentar-se, no seu esplendor de cavalheiro conquistador, armado e engalanado, como o navegante mitológico que regressava aos seus domínios, anulando com astúcia qualquer a possível resistência que o imponente império podia ter-lhe apresentado.

Tezcatlipoca

Também Tezcatlipoca era uma divindade solar e lunar, o sol cálido do estio e a divindade noturna invisível. Agora falamos de um deus singular, um dos rivais Tezcatlipoca, dado que foram quatro os filhos de Ometeotl, cada um com uma das quatro cores simbólicas: branco, vermelho, preto e azul. Para maior complicação da figura divina de Tezcatlipoca, muitas vezes aparece o seu oponente Quetzalcóatl com a mesma caracterização que ele. Tezcatlipoca andava na noite, aterrando os infelizes ou contribuindo para cimentar a fama dos corajosos que mantinham a sua honra perante a terrível presença do deus, que era tão temido como respeitado, dado que a ele também lhe ofereciam abundantes sacrifícios humanos. Uma dessas festividades dedicadas a Tezcatlipoca era a do Toxcatl, para a qual se preparava um prisioneiro, sempre um homem jovem e bonito, durante todo um ano. Três semanas antes do seu sacrifício ritual, o prisioneiro considerado como a própria personificação do deus, era unido em casamento a quatro virgens escolhidas e estava com elas até que chegava o dia da cerimônia. Então, acompanhado pela nobreza era levado ao templo do sacrifício; lá, solitário, ascendia a longa escadaria com toda a majestade do deus encarnado.

Na cimo, esperavam-no os sacerdotes e a faca de obsidiana que teria que abrir-lhe o peito de um único golpe, para que o seu coração pudesse ser levantado ao céu e jogado depois, com o corpo, pelas bancadas abaixo, de maneira similar como se fazia para satisfazer Quetzalcóatl e o grande Huitzilopoctl.

Huitzilopochtl - Deus supremo

Como é natural, o deus mais importante do panteão azteca, Huitzilopochtl, era também o deus da guerra, dado que este era o ofício por excelência da casta superior. Huitzilopochtl, filho da virgem Coatlicue e irmão de uma única mulher e dos quatrocentos do Sul, era a primeira divindade, a quem se atribuía a guia do povo azteca de Aztlan, no norte (a terra das gralhas), à margem do lago Texcoco, onde assentaram a capital do seu império. O deus supremo era, naturalmente, filho de uma virgem, como costuma fazer-se em todas as mitologias com os primeiros deuses, e diz-se, para centrar a razão dessa virgindade, que Coatlicue ficou grávida por obra do céu, dado que pôs no seu seio uma grinalda de penas de colibri, da qual nasceria a divindade suprema. Mas não se pensou que fosse possível tal gravidez, e os quatrocentos do Sul, guiados por uma das filhas, trataram de evitar a pretendida desonra da sua mãe, assassinando-a antes de poder dar a luz aquela criatura. Coatlicue conseguiu esquivar-ser do ataque dos seus anteriores filhos (logicamente também filhos de virgem), dando à luz o seu filho em forma de um homem adulto e completamente armado, como corresponde ao deus que tem que personificar a guerra e que luta com os seus quatrocentos irmãos que duvidaram da virgindade da sua mãe e quiseram matá-lo. Mas também é Huitzilopochtl quem, além disso, seria mais tarde o próprio Sol e nada menos que a águia, o astro por excelência e o animal mais poderoso da heráldica azteca. Huitzilopochtl, senhor de Sol e do Sul, com o seu vestido de penas e armado com o escudo na esquerda e a lança na direita, recebia o sacrifício ritual dos corações, ainda palpitantes, arrancados do peito daqueles que lhe serviam de oferenda.

A Morte no centro da vida

O mito Azteca, como todos os mitos da América Central, girava ao redor da morte; a sua religião exigia sacrifícios de sangue e se movia ao redor de uma plêiade de divindades da morte e de muitas outras entidades menores e terríveis. Sobre todas essas criaturas do tenebroso mito infernal regiam, a partir do nono círculo, o mais recôndito do universo escuro de Chicnaujmichtla, os esposos Mictlantecuhli e Mictecacihualtl.


O Universo estava composto por uma série de planos paralelos, que iam dos nove, ou treze, exteriores, onde residiam os deuses (nos planos superiores) de planetas e astros que se vêem no firmamento, passando pelos céus e suas cores.

Sob o plano do nosso mundo, debaixo desse disco que está no centro do Universo (rodeado por água em toda a sua periferia), se sucediam os planos paralelos, que aqui somavam nove, terminando no inferno para o qual iam as almas dos seres anônimos. Esse caminho durava quatro anos através de duras provas às quais eram submetidas às almas que não foram escolhidas por Huitzilopochtl, o grande deus supremo e divindade do Sol, que só se preocupava da morte dos seus escolhidos, os guerreiros. Ou ainda, aqueles que não foram escolhidos por Tlaloc, o deus das chuvas e a água, a quem correspondia os que tinham morrido pelas águas exteriores do céu e da terra, pelas tempestades e pelos raios, e por causa de doenças relacionadas com as "águas" interiores do corpo humano, numa estranha assimilação da gota e da hidropisia à água das nuvens, dos mares e dos rios.

O nosso mundo, como os céus situados sob os deuses, tem quatro cores que situam nas suas quatro partes componentes: diante do preto do país da morte, situado ao Norte, está o azul, que corresponde ao país do Sul; diante do levante de cor branca, está o poente de cor vermelha.

Um pouco de história

Para situar melhor o contexto histórico da cultura Azteca, digamos que os aztecas, um povo nahua, tinham chegado ao vale de México vindo do norte, mas sem que se possa precisar a sua origem, e fundam México em 1324, a sua capital, sendo, pois, a última das grandes civilizações que se instalam na zona e posteriores aos toltecas, que desalojam no poder, e os milenários maias, embora o seu império se desmorone completamente em 1521, enquanto os maias continuariam em pé durante outros cento e oitenta anos, depois de terem existido durante mais de dois mil e quinhentos anos. A sociedade Azteca estava estratificada em classes, duas superiores (sacerdotes e guerreiros), intermédias (comerciantes, dos camponeses e povo) e a inferior (os escravos).

A terra era propriedade de todos, embora os teocalli ou templos tivessem as suas próprias terras, as teotlalpan (terras dos deuses) e os clãs eram a única forma de se transmitir e manter o poder, embora a grande maioria residisse na imensa legião de sacerdotes (um milhão, segundo os cronistas) que se ocupavam dos quarenta mil templos abertos em todo o império Azteca, e aos quais havia que pagar tributo, entregar as primícias da terra e prestar trabalho obrigatório. Além de servir as necessidades de tão vasta igreja, os produtos guardados nos celeiros e nos silos também serviam para ajudar a povoação em épocas de escassez. Por sua parte, os reis aztecas procuravam que a maior parte destas obrigações para com a religião e para com a sua própria corte fosse por conta dos povos conquistados, aliviando assim a sua gente, ao mesmo tempo em que se favoreceria o militarismo da casta guerreira, apresentado como uma vantagem para o povo devido à permanente conquista de territórios e à aliança com os povos fronteiriços.

Mitos da América do Norte

Começamos por tentar resumir a mitologia mais barroca de América do Norte, a azteca, centrando-nos unicamente na descrição dos grandes deuses do seu panteão, dada a grande variedade de divindades menores, inclusive de outras muitas importadas de religiões que foram assimiladas juntamente com as vitórias territoriais. Em princípio, segundo o mito geral de América Central, e em particular o azteca, a criação do Universo se deve ao sacrifício de um deus, Ometeotl ("deus duplo"), ou Nanahuatzin, que, nessa constante sacralização do sacrifício, se transforma (Nanahuatzin está vinculado ao fogo) para dar-nos a construção do nosso mundo. Um mundo que também se constrói, por vontade de Ometeotl, a partir do seu sacrifício, engendrando na sua desaparição os quatros Tezcatlipocas. Com eles se vão sucedendo as quatro idades.


Ometeotl

A primeira, quando o primeiro Tezcatlipoca se converte no Sol e faz nascer à humanidade; mas esse mundo termina, devido ao confronto entre os quatros Tezcatlipoca, com a destruição do Universo por Quetzalcóatl, através do dilúvio, com uma humanidade transformada nos peixes que habitaram nas águas vindas do céu. Depois se estabelece a idade dos gigantes, mas esta era termina com a queda do céu; na terceira idade, o fogo celestial arrasou a superfície do mundo; na quarta e última idade, o vento arrasou de novo a superfície terrestre e os humanos se transformam em símios. Após essa quarta idade, no mito nauatl, nascem de novo os homens numa terra também renovada, ao mesmo tempo em que os deuses saem do nosso mundo para ir para o dos mortos e deixar-nos viver sem o perigo das suas rivalidades. Naturalmente, há diversas versões do mito da criação, alguma delas com três idades (os homens de argila, os de madeira e os de milho) e outra com cinco idades, mas todas elas coincidem em apontar que o nosso mundo conheceu muitas mutações e que outras nos esperam no final de cada tempo, sob o olhar atento do deus principal, Huitzilopochtl.

O mito da luta entre os oposto

No Presente, a Escuridão trata de conquistar a Luz; por isso, o Homem Primogênito, o filho da Mãe da Vida, trata de combatê-la com a ajuda dos seus cinco filhos, de Ar, Vento, Luz, Água e Fogo, que fazem de seu escudo e armadura; decidido, vai para os abismos, onde os seus filhos são devorados pelos demônios e a luz se mistura com a matéria.

Há uma segunda criação que nos vai trazer a salvação, é a do Espírito Vivo, que também se conhece como Amigo da Luz, ou Grande Arquiteto, e ele vem acompanhado pelos seus cinco filhos: Ornamento de Esplendor, Rei de Honra, Adaman de Luz, Rei de Glória e Atlas.

O Espírito Vivo vai ao Reino da escuridão, mete-se no mais profundo e grita; o seu grito é ouvido pelo Homem Caído, nesse momento as duas divinas pessoas, a da chamada e a da resposta, se produziram. O Espírito Vivo entra no mais recôndito da Escuridão, com a sua mão direita toma a do Homem Primogênito, estabelecendo o cumprimento litúrgico maniqueu. Sai da sua prisão o Homem e regressa para o Paraíso de Luz, o seu mundo celestial; deste modo, o Homem Primogênito é o primeiro em cair e o primeiro em salvar-se.

Mas a alma ficou na Escuridão e Deus tem que organizar o mundo visível para conseguir a sua salvação, com a ajuda do Espírito Vivo e dos seus cinco filhos, castigando os Arcões; construindo com a sua pele os céus; as montanhas com os seus ossos; a terra com a sua carne e os seus excrementos; assim, dão forma a um Universo de dez firmamentos e oito terras.

Com a Luz que se misturou com a Matéria, podem-se fazer três partes; da primeira, a que permaneceu pura, faz-se o Sol e a Lua; a pouco impura serve para construir as estrelas; o resto, impuro, terá que esperar a terceira criação para se limpar, à chegada do Terceiro Mensageiro.

O Terceiro Mensageiro constrói uma máquina com engrenagens de Ventos, Água e Fogo. Com ela tirou a Luz apanhada na Escuridão e, todos os meses, nos primeiros quinze dias, sobem as partículas de Luz salva, que são almas, em Colunas de Glória até à Lua. Na outra quinzena, as almas passam da Lua para o Sol, e de lá continuam o seu caminho para o Novo Paraíso.

Além disso, o Terceiro Mensageiro aparece no Sol, como mulher excitante e nua aos Arcões, e estes ejaculam, e do sêmen que cai na terra brotam os filhos que devolvem a Luz engolida. Às Bruxas e Sereias aparece no Sol como um homem nu e atraente, e estas abortam.

O sêmen que caiu no mar converte-se em monstro marinho, mas o Adaman de Luz atravessou-o com a sua espada. O sêmen que caiu na terra fez crescer cinco árvores das quais nascerá o resto das plantas.

Mas a Matéria engendrou dois diabos, Ashacun e Namrael, para devorarem os restos dos demônios abortados, para evitar que a Luz escapasse, e tantos devoraram que da Luz engolida nasceram Adão e Eva. Em Adão é Jesus o Resplendor quem infunde a Consciência. Mas os descendentes de Adão e Eva se alimentaram na copulação e na procriação, seguindo os ditados da Matéria. Só os castos se salvarão.

Virá o Apocalipse e a Terra arderá durante 1.468 anos. O resto da Luz subirá ao céu, enquanto se apaga o mundo visível e a Matéria e os demônios descem ao seu eterno presídio, a um poço sem fundo, para que Luz e Escuridão fiquem separadas também para sempre.

O dualismo de Mani

Com a inegável base da dualidade entre Ahura e Ahriman, com as aportações dos hereges Marção e Bardesanes, com a herança gnóstica da iluminação interior, Mani constrói a sua teoria religiosa dos dois princípios e os três momentos, na qual se funda todo o seu credo. Mani diz que há duas substâncias antagônicas, a Luz e a Escuridão, os dois princípios que nunca foram criados e que sempre existiram, eternos e iguais, que vivem em duas regiões separadas do infinito. O reino de Deus, o da Luz, se encontra no Norte, no Este e no Oeste; o reino do mal está no sul, talvez porque ao sul de Pérsia esteja somente o deserto da Arábia e a solidão do mar, e que nas outras três direções, pelo contrário, se encontre o mundo habitado e habitável. Deus, a Luz, é o Pai de Grandeza; o mal é o Príncipe das Trevas. No mundo do Pai de Grandeza reinam as quatro notas harmoniosas da paz, a pureza, a doçura e a compreensão; no mundo do Príncipe das Trevas só há os quatro vícios da desordem, a estupidez, a abominação e a hediondez. Por sua vez, o mundo do Pai de Grandeza compreende cinco moradas: entendimento, razão, pensamento, reflexão e vontade, habitadas por inumeráveis leões, criaturas do bem. Antagônico em tudo, o mundo do Príncipe das Trevas é um poço onde se encontram, um sobre outro, os seguintes estratos de fumo, de fogo que consome, de vento destrutivo, de lodo e de escuridão, nos quais se encontram os cinco Arcões, chefes de cinco classes de repulsivas criaturas infernais. Pois bem, estes dois mundos separados foram no PASSADO, quando estavam bem afastados, na sua estrita dualidade, as substâncias: Espírito e Matéria, Bem e Mal, Luz e Escuridão. No tempo MÉDIO, misturaram-se as substâncias numa confusa amalgama, mas o Pai de Grandeza não abandonou a sua obra e lutou pelo resgate da verdade, por isso nos resta a grande esperança do FUTURO, quando a força do Pai de Grandeza restabelece a dualidade primordial e se voltam a separar as substâncias nos seus respectivos domínios; estes são, pois, os três momentos que aponta a doutrina do maniqueísmo, os três momentos que, junto com os dois princípios, são o dogma único no que tem que acreditar aquele que queira, de verdade, a salvação eterna da sua alma.

Maniqueísmo - Religião de Mani

Mani (o Manes dos gregos) nasceu em 14 de Abril do ano 216 no sul da Babilônia, numa família arsácida. O seu pai, Patik, ouviu a chamada divina e retirou-se dos prazeres da mesa, odiando a carne e o vinho, como odiou o sexo, para unir-se à seita dos baptistai, como lhes chamavam os gregos, ou Al, como lhes chamavam os árabes. Com o seu pai Patik Mani viveu até à idade de vinte e um anos, para depois separar-se dele e dos baptistai; a explicação da sua separação dessa seita é dada pelo mesmo Mani, ao narrar que o seu anjo gêmeo, ou da guarda, lhe veio comunicar, em 7 de Abril de 228, que devia sair dela aos vinte e quatro anos de idade, coisa que ele fez um dia desse mês de Abril que marca constantemente os fatos da sua vida, exatamente o 19 de Abril do 240. Imediatamente, Mani converte-se no Apóstolo da Luz, no Paracleto dos gregos, anunciando a nova religião revelada, da qual ele é o seu profeta, como o foram Adão, Zaratustra, Buda e Jesus. Vai de um lado para o outro do império sassânida e a sua religião alcança tal magnitude que se estende da Pérsia ao limite ocidental da Espanha e da Gália por Ocidente, e ao limite oriental de China no ano 675, e conhecendo lá a sua consagração como religião oficial ao ser decretada pelo mesmo imperador, ao mesmo tempo que ordena o primeiro bispo maniqueu. Depois, com o decurso do tempo, voltam as tradicionais religiões chinesas a impor-se à que chegou da Pérsia e o maniqueísmo acaba no ano 843, quando se proíbe na China, mas fica assentada com força em regiões como Fukiem e Formosa até o século XIV.

Noutras zonas da Ásia, como no Turquestão, o maniqueísmo continua vivo durante séculos e só termina a sua presença quando Gengis Kan o invade nos princípios do século XIII.

Mitra apaga-se - Jesus acende-se

A grande festa do renascimento mitraico celebrava-se grandiosamente em Roma no mês de Dezembro, exatamente no dia 25, desde que Júlio César deu o seu visto ao calendário definitivo que teria de reger no seu Império.

César fixou esse dia 25 de dezembro como o dia oficial do solstício de inverno e, anos mais tarde, o imperador Aureliano, no ano 274, fixou o 25 de Dezembro como o dia dedicado a celebrar o nascimento do Sol, quando chegava a data do solstício de inverno e o dia, após ir encurtando-se, começava o seu crescimento que o levaria ao máximo, ao anual e renovado solstício de Verão. Como muito acertadamente aponta Isaac Assimov nos seus estudos comparativos sobre os textos bíblicos e o evangelho, a nova e triunfante igreja cristã, assentada também na mesma Roma que teve que combater e pela qual foi combatida, não teve mais remédio que aceitar a popularidade de Mitra e tentou substituí-lo com um Jesus menino nesse dia, embora tivesse que decorrer uma boa parte do século IV para que se chegasse a considerar o Natal como algo estabelecido. A partir dessa declaração da igreja cristã, da igreja de Jesus, o seu nascimento era o que tinha que celebrar-se anualmente no dia 25 de Dezembro e para não deixar detalhes soltos, "deixou grávida" Maria com uma antecedência de nove meses exatos, de modo que a sua Anunciação se celebraria no dia 25 de Março, quando Isabel estava no seu sexto mês de gravidez de João o Batista três meses (mais ou menos) por atrás da Anunciação, com tanta sorte que o seu calculado nascimento caiu muito perto do solstício de Verão, em 24 de Junho, fazendo com que com a discutida e discutível figura de João Batista, o primo, ou o irmão suposto e não admitido de Jesus, outro suposto Messias, ocupasse o outro grande espaço pagão por onde se podia escapar uma grande parte da nova paróquia tão duramente conquistada, contrapondo com êxito as novas divindades aos mais antigos e assentados cultos.

O Mistério de Mitra

Na reserva e exclusividade dos reduzidos mitreus celebrava-se o mistério da vida e ressurreição, o culto mistérico de Mitra, o triunfador sobre a morte e doador de vida, o condutor de almas e o salvador dos humanos. O mistério de Mitra deve reconstruir-se também pelos restos arqueológicos, artísticos, dos mitreus, pois não há mais dados do que aqueles que ficaram gravados em suas paredes. Celebravam os banquetes de união entre os iniciados e também as provas de admissão à iniciação. Essas provas que eram set simbolizavam a passagem da alma humana pelas sete esferas planetárias, como no devido momento instituíram os assírios sobre o culto persa. Os sete graus eram estes:

1.º o corvo

2.º o oculto sob o véu nupcial

3.º o soldado

4.º o leão

5.º o persa

6.º o mensageiro do Sol

7.º o pai

Após as provas correspondentes, umas de piedade, outras de doutrina, outras físicas, após essa passagem pelos sete graus, o fiel podia considerar-se dentro do clã de Mitra, do grupo dos iniciados no culto mistérico, com o tácito diploma de fidelidade e pertinência ao Senhor do céu; porque nestes cultos mistéricos, a ideia era (e continua a ser nas maçonarias e outros ritos iniciáticos e simbólicos) a de fazer passar o iniciado pelas provas de dificuldade crescente, fazendo-o avançar gradualmente pela depuração terreal, antecipando-se às provas após a morte, fazendo no templo o que se supõe que a alma que tivesse passado as sete esferas planetárias da mão de Mitra teria tido que fazer para alcançar a vida eterna.

Os Mitreus


Nos santuários de Mitra, nas grutas artificiais subterrâneas que são os mitreus, se representa uma concepção religiosa independente. O culto de Mitra é um culto mistérico, muito mais atraente e apaixonante do que o já periclitado culto oficial aos muitos e diferentes deuses que se foram assentando no super-povoado panteão romano. Resulta muito indicativo o fato de que os mitreus se vão estendendo centripetamente, dos postos avançados da legião, nos frontes permanentemente abertos, onde existe perigo de invasão, onde está o melhor do exército romano, para o interior do Império, sempre seguindo as linhas militares, para terminar implantando-se em Roma com um caráter muito marcado de culto ao rei, ao imperador. O deus aparece como matador do touro sobre o asse central. Veste uma túnica curta, capa e gorro frígio e, na sua mão direita, está a faca com que mata o touro, enquanto do sangue que brota da ferida do pescoço surge uma mata de espigas.

Sobre a ala central está a abóbada ritualmente perfurada por onde entra a luz, de modo que essa luminária imita as estrelas do céu que está encomendado ao deus, enquanto o Sol, que um dia foi parte da personalidade de Mitra, além da Babilônia, passa a um segundo plano como auxiliar ou acento do poder divino de Mitra, para ser simplesmente um fiel discípulo seu, como o eram os novos acólitos da imaginaria mitraica romana, Cautes e Cautopates, outras duas figuras solares que aparecem como um par de jovens vestidos também com clâmide cingida à cintura e gorro frígio, para que não haja a menor dúvida da sua pertinência ao cortejo mitraico, Cautes com a tocha para acima, como símbolo de juventude, de primavera, de amanhecer; Cautopates com a sua tocha para abaixo, como recordatório da senilidade, do outono e do ocaso.

O Triunfo de Mitra

No seu contato com o mundo grego, o deus solar dos assírios e o deus auxiliar dos persas, Mitra, passa a enriquecer-se com os dons pessoais de três deuses olímpicos: Apolo, Hermes e Hélios. Mitra se engrandece e aproxima do modelo clássico ao receber graças divinas de Apolo, deus da juventude, da beleza e das artes; de Hermes, mensageiro dos deuses; de Hélios, o mesmo deus do Sol, por sua vez outra encarnação de Apolo. Depois de ter sido helenizado, o renovado Mitra é levado em triunfo pelos legionários romanos, originários ou destacados, da Ásia Menor para Roma, lá, no coração de um império onde os deuses gregos latinizados estão crescendo, o novo e apaixonante culto a Mitra se assenta com força entre a classe militar e os seus imperadores, muitos deles surgidos da própria milícia legionária, e ao estar protegida por tão influente casta, converte-se num dos principais, construindo-se templos subterrâneos, os mitreus, por todo o império romano, onde se adorava Mitra como o guarda desse universo celestial, matando o touro que, no Avesta, tinha sido criado por Ahura-Mazda e morto por Ahriman, de cujo corpo tem que brotar toda a vida que há sobre a Terra, o touro que é fonte de vida para o reino animal e para o reino vegetal. Com essa invocação de Mitra tauróctone, o deus das almas também se torna divindade da vida que renasce constantemente, da vida que brota estacionalmente. Outras vezes aparece saindo da rocha afundada onde a ponte das almas tem a sua base, leva numa mão a faca com que tem de sacrificar o touro e na outra uma lanterna. Também vemos Mitra saindo entre as folhas de uma árvore, conseguindo que a água, também fonte de vida, brote abundantemente com a sua divina presença.

Mitra

Assim como os deuses gregos tinham passeado entre os céus e a terra, sem deixar de morar em ambos, Mitra é o primeiro deus exclusivamente celestial, morador das alturas inalcançáveis para os mortais, guarda das regiões destinadas às almas que triunfam nas duras provas do último julgamento e condutor do seu trajeto através das sete esferas. Mitra tinha nascido na união entre índios e iranianos, e assim vê-se como aparece entre as linhas dos textos sagrados índios, nos Vedas, mas também o Avesta persa o faz seu, embora custe muito fazer com que o monoteísmo zaratustriano deixe que uma nova figura divina entre no escasso espaço que deixam as duas forças opostas e complementares do bem e do mal, de Ahura e de Ahriman. Mitra já existia na Babilônia conquistada pelos persas e nessa cidade, agora residência de inverno da nova corte, se misturam os seus dados originais com os da antiga divindade babilônica de Shamash, o deus do Sol; também com a influência astronômica e astrológica dos assírios, o céu persa, o céu dos três planos, se enriquece e passa a ser um firmamento composto por sete esferas, incorporando os reinos do Sol, da Lua e dos astros e estrelas, os sete planos por onde hão de transitar as almas, com a sábia e benfeitora guia de Mitra.

Mas Mitra, apesar da sua importância, não é nenhuma divindade principal, é apenas um dos veneráveis, dos santos que acompanham Ahura-Mazda e que estão ao seu lado na sempiterna luta. Mitra tem o seu lugar preciso na montanha fendida, onde se apóia a ponte que leva as boas almas para o céu, porque ele é o deus desse céu, o deus da salvação para as almas dos mortais.

Uma religião do Estado

O zoroastrismo serviu de motor para a conquista do império pela dinastia sassânida. Com eles no trono, o Avesta tomou a sua forma definitiva, com salmos, mandamentos, relatos sagrados, orações e liturgia. O Avesta fala-nos da complicada composição militar e política das hostes do bem e do mal; no exército de Ahurada, e com ele no Conselho, estavam os seus seis ministros, os arcanjos Amchaspends: Ardibibich, encarregado do fogo; Bahman, encarregado dos animais; Chariver, a cargo dos metais; Jordad, das águas; Murded, ministro do reino vegetal, e Sipendarmich, senhor da terra. Por baixo dos ministros estava a legião dos anjos Yazata e a outra das mulheres-anjos. O exército do mal, sob o comando do demônio Ahriman, tinha a sua corte dos diabos, ou Divs: Aechma, encarregado da ira; Akono, a cargo das tentações; Indra, que se encarregava das almas condenadas ao inferno; Naosijaita, que insuflava a soberba nos humanos; Sorú, o encarregado de aconselhar o mal aos dirigentes e de induzir o crime nos súbditos. Por baixo deles estavam os demônios menores, masculinos e femininos, que se encarregavam de todas as ações perversas que os seus chefes Divs lhes encomendassem. O ser humano herdou o castigo merecido pelo preço dos primeiros pais, Yima e Yimé, que se levantaram contra o seu deus, julgando-se iguais, embora este lhes tivesse dado a vida e o conhecimento, construído o Paraíso e salvo do Dilúvio. O ser humano, pois, agora tinha que fazer com que a sua vida decorresse pelo reto caminho, ouvindo os conselhos dos arcanjos e anjos e rejeitando as tentações e as provocações de demônios e diabos. No final da sua vida, a alma tinha que passar a ponte de Chinvat, onde sofria a pesagem definitiva, para ver se prevaleciam as boas ações ou se, pelo contrário, o condenavam às suas culpas, como no julgamento do mito egípcio, mas com a diferença de que, à passagem das almas, a ponte se alargava e tornava reta para os bons e estreita e tortuosa para os pecadores, que terminavam por cair dela e submergir-se nas profundidades do inferno eterno.

Antecedentes do Zoroatrismo

Quando o zaotar recebe a visita do arcanjo da sabedoria, de Bou mano, com o qual vai ser iniciado nos segredos da criação e na essência única do deus Ahura, também é ensinado a comportar-se de acordo com a sua divina vontade, dado que recebe o prontuário sacro da forma em que devem ser as relações do homem com os vivos e os mortos, como há que queimar os restos mortais e não entregá-los sacrilegamente à terra, como há que cuidar dos animais domésticos, como deve ser o comportamento do ser humano com o fogo e a água, com os metais e a terra, com a vegetação e os seus frutos. Zaratustra recebe, pois, a ciência infusa, o conhecimento total de Deus, mas não é uma cerimônia fácil, dado que Ahriman também quer desbaratar esta obra e ataca o zoatar com as suas tentações, oferecendo-lhe todos os bens da terra em troca da sua promessa de não atacar o mal e os seus enviados. Zaratustra, tocado pela luz e a verdade, rejeita a oferta demoníaca e lança-se a pregar a palavra sagrada, a religião do único Deus verdadeiro. E a sua palavra ganha prova inequívoca através dos seus muitos milagres e assombrosos fatos, pois ele, com a graça de Ahura, já é Shaoshyans, um sábio que conhece todas as respostas a todas as perguntas ainda não formuladas, como soube responder com palavra justa ao malvado, ao demônio que ele descobre e sobre o qual é o primeiro em advertir a sua presença, em anunciar ao mundo do perigo da sua existência, com tanto êxito que até os reis ouvem a sua mensagem e fazem sua a doutrina invocada pelo santo Zaratustra quem, de novo, segundo o pouco que dele se sabe, nunca ocupou cargos públicos nem arrecadou fortuna ou poder, pois o simples fato do desconhecimento do lugar onde morreu, ou como foi honrado após sua morte, vem ser suficiente demonstração de que o homem de fé venceu o possível chefe religioso.

Texto Sagrado - Avesta

Segundo a religião zoroástrica, anterior em séculos ao texto sagrado do Avesta, ao livro composto muito tempo depois da morte de Zaratustra, talvez no século III da nossa era, sobre a base do que pregou o sábio e santo reformador, Ahura, o deus do bem e da verdade mantém uma luta cíclica contra o demônio Ahriman, contra a personificação do mal e da mentira.

É uma longa batalha iniciada com aquela luta permanente da criação e que vai durar um total de doze mil anos, uma guerra com resultados desiguais e mutantes, na qual de três em três mil anos se vai produzir uma volta na sorte dos adversários. Assim Ahura, ou Ormuz, e as suas tropas vencerão em duas ocasiões, sendo em outras duas o triunfo para o exército do seu adversário Ahriman, para terminar definitivamente, decorridos os doze mil anos de combate, com a vitória de Ahura, do bem sobre o mal, da verdade sobre a mentira, da luz sobre as trevas. Será também o dia em que se produzirá o cataclismo universal que marca o fim dos tempos, quando chegar o momento em que um meteoro caia dos céus e venha chocar contra a nossa terra, como juiz e carrasco da humanidade. Após o seu choque, o planeta ver-se-á envolvido num abrasador mar de metal fundido purificador, mas o sofrimento não será igual para todos, vivos e mortos ressuscitados, dado que o fogo insuportável da penitência se repartirá segundo a justiça divina, para fazer cumprir a penitência exata que corresponde a todos e cada um dos seres humanos. Terminado o purgatório sobre a face da terra, chegado o momento em que todos os homens tenham expiado as suas faltas, se acabará o sofrimento e todos os seres humanos alcançarão a imortalidade prometida por Ahura, passando a habitar no seu reino eterno do bem e da luz.

A Criação

Ahura falou a Zaratustra e lhe revelou a verdade sobre a criação, sobre a sua criação de um universo criado por sua vontade do nada, para evitar que o mundo se deslizasse para o abismo do Erjana Veja criado pelo deus da morte Ahriman, para esse território gelado no qual os dez meses de frio apenas são contrariados pelos dois escassos meses de sol, desse mundo maldito em que o curto verão não chega a aquecer suficientemente para permitir a vida. Por isso, para nós os humanos, o deus Ahura criou o paraíso, Ghaon, o lugar onde mora Sughdra, onde florescem as rosas e cantam os pássaros; mas Ahriman tentou desbaratar a sua beleza, criando os insetos que atacam as plantas e os animais. Ahurada fez aparecer depois a cidade santa de Murú e Agra Manyú a infestou com todos os vícios e mais a mentira que tudo corrompe. Ahura não desfaleceu e criou a cidade exemplar de Bachdi, rodeada de campos férteis, pastos povoados com todas as classes de gado, uma rica e florescente cidade à qual Agra Manyú enviou as suas feras e bestas para devorarem o gado que pastava nos viçosos pastos de Bachdi. Mas Ahura contra-atacou construindo a cidade religiosa de Nisa, que Ahriman rodeou com a nuvem da dúvida, para corromper a sua fé. De novo Ahura retomou o seu trabalho criador e pôs em pé a próspera e laboriosa cidade de Harojú, a qual Ahriman mandou a negligência para empobrecê-la. E a luta sempre continua, com Ahura criando bondade e virtude por um lado, e Ahriman pela sua parte, destruindo continuamente a obra sagrada com a sua maldade. Ahura também explica a Zaratustra que é Agra Manyú quem espalha sem trégua entre as criaturas terrestres a mentira e a maldade.

Zaratustra

Muito pouco se sabe da verdadeira história de Zaratustra, de Zoroastro, como o chamaram os gregos, e apenas se pode supor, pelo que se conta sobre a sua vida eremita e contemplativa, que devia ter sido um clérigo-cantor estático, um zaotar, dos que se isolavam para, na sua solidão e com a ajuda de substâncias tóxicas ou alucinógenas, tentar entrar no transe que lhes permita ascender às regiões superiores da divindade, até converter-se, como ele próprio o descreve, num Saoshyans, num sábio. Supõe-se que nasceu ao redor dos 628 a.C. na antiga cidade de Rhages, na Pérsia, no atual Irã que agora se chama Rayy.

Segundo a lenda, conta-se que Zaratustra nasceu com o sorriso no seu rosto, como presságio da felicidade que trazia o predestinado menino. Calcula-se que morreu no ano 551 a.C., mas não se sabe com certeza onde aconteceu a sua morte nem se conhecem muitos mais dados da sua vida. O que nos transmitiu foi a sua revelação, que - aos trinta anos de idade - teve do deus único, Ahura, o Ormuz que chegou também pela mão dos gregos. Zaratustra já recebeu uma mensagem divina aos vinte anos de idade, quando Deus lhe ordenou que abandonasse a sua vida familiar para sair à procura de outra forma de vida, entregue à verdade e ao auxílio dos que nada possuíam, dando comida, bebida e refúgio do fogo aos humanos e animais que necessitassem deles. Após sete anos de retiro hermético, Zaratustra alcança finalmente a perfeição e é premiado com a mensagem divina que lhe trazem os arcanjos ao alcançar o estado de êxtase perfeito, levando-o à presença de Ahura. Essa revelação está escrita no livro do Avesta, que foi, além de um texto sagrado, uma rebelião contra o politeísmo inicial, uma revolta contra a antiga ordem dos persas.

Os Persas

Os persas, as famílias de parsis e de medos, surgem na história da Mesopotâmia com força, relevando o império assírio e ocupando as suas capitais durante um breve período. Assim Nínive cai em seu poder no ano 606 a.C. e Babilônia passa a ser parte dos seus domínios no ano 538 a C, sob Ciro II. Os persas criam por sua vez um império ainda maior e poderoso que se estende por quase todo o território da Ásia Menor, englobando desde a fronteira natural com o subcontinente índio pelo Este, o Cáucaso pelo Norte, a península arábica pelo sul e as costas do Mediterrâneo pelo Oeste, incluindo nos seus extensos domínios as colônias adstritas à esfera de influência grega. Esta extensão geográfica e a diversidade de povos submetidos à influência política persa vai fazer nascer uma nova religião composta, em partes iguais, pelas tradições indo-iranianas e pelos mitos particulares de cada uma das zonas englobadas no novo e grande Império, numa muito vasta e mutante crônica, com altos e baixos militares, mas com uma história brilhante que se estende por mais de um milênio, através das dinastias aquemênides (até ao ano 330 a.C.), arsácidas (até ao ano 224) e sassânidas (até ao ano 654), até o momento em que a nova força religiosa e conquistadora do Islã termine, pela força das armas e quase completamente, com a rica tradição mitológica persa, acabando também com a religião que tinha sido fundada por Zaratustra no século VII a.C., exposta nos textos do Avesta, a base ideológica persa que permitiu a coesão do extenso e duradouro império a partir da última dinastia, a sassânida, e que seria mais tarde aumentada e reformada com a nova idéia do maniqueísmo.

A Mitologia Persa

Ainda hoje, a muitos milênios de distância da antiga e desaparecida Pérsia, e entre os povos de tradição cristã, se continua celebrando a grande festa persa de Mitra; essa é também a festividade do santoral cristão; a festividade cívica do Ocidente, o tempo de reflexão na paz e de trégua na guerra. Com certeza,  Mitra já não é conhecido pelo seu nome, mas continua celebrando-se o seu nascimento com o Natal, o nascimento anual e eterno do deus.

Também da Pérsia, do monoteísta Zaratustra, herdamos dos povos da rama Judéia essa noção e o conceito aliado do confronto necessário entre o bem e o mal, entre Deus e demônio.