Deuses e animais

Se a alegre e feliz Hátor tinha a forma de uma vaca, o seu animal companheiro era o muito relevante deus Ápis, o boi divino adorado desde os primeiros tempos da existência do Egito, embora não chegasse à sua categoria celestial. Não é de admirar esta representação animal dado que todos os deuses egípcios tinham uma característica animal que geralmente portavam nas suas figurações em lugar da cabeça humana, quer fosse uma de falcão, como no caso de Hórus; de chacal ou cão, como a que distinguia Anúbis; de leoa, como a que personificava a deusa Sekhmet; de vaca, como às vezes levavam Ísis e Neftis; de bode, como podiam luzir Khnum; a cabeça de gato que diferenciava Bastet e Mut; a de ganso que era a de Amon; o íbis e o macaco que encarnavam o supremo Toth; o escorpião que representava o espírito da deusa Selket.

Mas o boi Ápis era um verdadeiro animal, selecionado entre os seus congêneres de acordo com umas marcas sagradas que deviam exibir, para servir de centro do seu culto; era cuidado no seu templo de Mênfis durante vinte e cinco anos, se chegasse a alcançar tal idade, depois era afogado e mumificado, para dar lugar ao seu sucessor.

Mas junto da magnificência do boi Ápis, não há que esquecer o escaravelho sagrado, o Khepri, representação viva e múltipla do deus do sol e venerado em todos os cantos do Egito, sendo uma das representações mais freqüentes da divindade solar, que faz parte essencial da civilização egípcia e que está imortalizado entre os signos escolhidos para a linguagem escrita.

Hierarquia do Mundo dos Mortos


Osíris, com Hórus, Toth e Maát e os seus quarenta e dois assessores especializados nas quarenta e duas faltas que deviam ser calibradas, (sete vezes seis, um número duplamente mágico), presidia as cerimônias do estrito julgamento dos mortos. Ante ele eram pesadas as boas e as más obras do defunto, a alma ou resumo da sua vida, e julgava-se essa relação de pecados ou virtudes. Mas não terminava o trâmite com a pesagem e defesa do defunto; após essa primeira parte, se passava a contrastar se o exposto tinha sido certo e tudo o que era julgável tinha sido trazido à luz. A veracidade do julgamento da alma era verificada com a pesagem minuciosa e precisa do coração, colocado na balança diante de uma leve pena, e bastava que esse coração fosse o que inclinasse a balança para o seu lado para que se condenasse o morto na verdadeira prova final, sendo que deveria padecer todos os sofrimentos possíveis, imobilizado na escuridão da sua tumba ou imediatamente o seu corpo devorado por uma aterradora divindade, Amit, uma criatura com cabeça de crocodilo ou leão e corpo de hipopótamo que aguardava pacientemente o mentiroso. Se tudo estava a favor do defunto, Osíris premiava-o com o renascimento e a passagem para a vida eterna. Mas junto dele estavam outras duas divindades especializadas no ciclo da morte: Anúbis, filho de Néftis e Osíris, embora criado e educado por Ísis, e Upuaut, um antigo deus da guerra. Os dois aparecem sempre com cabeça de chacal, ou de cão (especialmente Anúbis) acompanhando Osíris no transe do julgamento como seus primeiros auxiliares.

Eram dois seres acostumados a cuidar dos mortos, um por ter ajudado no seu dia a embalsamar o cadáver de Osíris, e o outro por ter tido que fazê-lo em tantas ocasiões, quando guiava as expedições guerreiras e devia cumprir o ritual com os seus guerreiros falecidos em combate.

O imponente Mundo dos Mortos

Se grande era o poder dos deuses e quase tanto o dos seus designados, os faraós, o mundo da morte era, em definitiva, o que governava a vida dos humanos, dado que toda a vida se orientava a cumprir com o custoso rito do enterramento, da preservação do corpo do defunto e da reunião dos muitos bens que deviam acompanhá-lo na sua marcha para a vida eterna.


Além de todo este cortejo de móveis, barcas rituais, imagens do morto, efígies dos deuses menores e maiores, alimentos, livros de orações e conselhos, devia permanecer o corpo, tão intacto como se soubesse fazer, porque ainda não se tinha chegado a abstrair a idéia da "alma", e só se identificava a possibilidade da vida após a morte com a conservação do aspecto humano. Por isso, nos enterros mais privilegiados conservavam-se embalsamadas por separado, junto da múmia igualmente embalsamada, as vísceras do defunto, dado que não resultava possível, pela sua rápida deterioração, mantê-las dentro do cadáver. Aqui desempenhavam um papel decisivo os quatro filhos de Hórus, dado que -como faziam com as entranhas de Osíris- eles cuidavam do bom estado das vísceras humanas e as protegiam de qualquer perigo que pudesse ameaçá-las. As quatro repartiam as suas funções da seguinte maneira: Imset (Amsiti) estava ao cuidado da vasilha que continha o fígado; Hapi velava pela urna onde se encontrava o pulmão; Duametef (Tuemeft) vigiava o estômago do defunto; e, finalmente, Quebsnauf (Kebsnef) cuidava do vaso no qual se conservavam os intestinos. Mas os quatro filhos de Hórus não estavam sozinhos nestas transcendentais tarefas, dado que Ísis acompanhava Imset; Neftis estava com Hapi; Duametef cumpria a sua missão junto de Neith, a deusa das águas do Nilo; e Selket, a deusa-escorpião que estava com Ísis na hora do parto de Hórus, estava com Kebsnef.

A luta entre reis e deuses

Como costuma contar-se em todos os mitos, uma vez passada a primeira época de harmonia, as criaturas terrestres, os seres privilegiados criados pela simples vontade de Rá, deus supremo, levantaram-se contra o seu senhor. Eram as sucessivas lutas à morte entre os inimigos da terra e as comitivas celestiais, lutas tão ferozes que foram desgastando as energias de Rá, até o fazer perder a sua força e babar. Com essa baba caída da sua boca, Ísis formou um barro e com ele construiu o áspide que - colocado no caminho do deus - envenenou Rá. Feito isto, Ísis apresentou-se diante do ferido, prometendo o antídoto em troca de que a divindade revelasse o seu nome secreto. Rá resiste enquanto pode agüentar a dor terrível, e trata em vão de esquivar a resposta, pois sabe que o nome da coisa e o poder sobre ela são uma única coisa. Mas afinal, vencido pela crescente dor, Rá tem que aceitar e dizer ao ouvido de Ísis esse nome que agora também ela vai conhecer, comunicando-lhe com esse ato a sua força total.

Uma vez vencido por Ísis, o enfraquecido Rá vai ser também o alvo de outros ataques dos seres humanos, e a sua vingança, através da deusa Sekhmet, a mulher-leoa que encarnava a guerra é tão terrível que quase termina com a humanidade, embora seja maior o amor que sente pela sua obra criadora, apiedando-se dos açoitados humanos justamente a tempo, ao enviar uma chuva de cerveja vermelha que cobre toda a superfície do planeta, confundindo Sekhmet, que a toma por sangue e trata de saciar a sua sede de morte com ela, embriagando-se com o vermelho líquido de tal maneira que deixa de executar a sentença de morte que Rá tinha decretado para os humanos. Depois deste ato de compaixão para com os seus ingratos filhos da Terra, Rá retira-se para sempre de todo o relacionado com os assuntos de governo, cedendo ao seu pai Geb, representante divino do planeta, o poder sobre o globo terrestre e quem sobre ele habita, pessoas, animais ou vegetais, mas sem o abandonar à sua sorte, dado que Rá se compromete a ajudá-lo com os seus conselhos e perpétua vigilância.

A batalha entre Hórus e Seth

Hórus já era um homem feito quando Ísis veio a ter com ele novamente, ela o ensinou a entrar em comunhão com o pai em Amentet (mundo dos mortos), e foi com Osíris que ele, Hórus, aprendeu a lutar e usar o arco e a flecha aprendeu a cavalgar e a domesticar os leões. Certa manhã a deusa Hator, filha de Rá, veio até o Nilo e avistou Hórus se banhando. A imagem do deus fez com que ela cantasse e dançasse de excitação e toda pessoa que ela fitava imediatamente se apaixonava.

Ela passou a ficar muito próxima de Hórus desde então, e ele nutria por ela o mesmo interesse. Mas ela não era a única a se apaixonar por Hórus. Néftis há muito tempo já havia deixado Seth e este casou-se pela segunda vez com Tauret (a mais antiga deusa da fertilidade). Quando Tauret soube sobre o jovem e viril falcão de Tebas, logo foi procurá-lo para fazer dele seu marido. Seth que já não gostava de Hórus por sua descendência e por medo de que o menino-falcão viesse cobrar o trono de seu pai, ficou ainda mais furioso com a notícia de que sua esposa tivesse o procurado. Enfurecido Seth colocou a coroa de guerra, pegou sua adaga e foi à procura de Hórus, como quem caça um javali. E a hora chegou, mas a luta entre Seth e Hórus seria longa e angustiosa; uma briga que aparecia não ter fim, na qual um e outro infringiam tanto mal como o que recebiam do seu adversário. E eles lutaram. Durante oitenta anos, suas facas se chocaram. Lutaram brandindo as clavas e atirando flechas. Os dois deuses emergiam do Nilo como homens, de pé sobre o dorso de crocodilos. Transformaram-se em Ursos, mordendo e dando patadas, transformaram-se em cobras, em feras selvagens, em asnos em falcões e leões. Transformados em hipopótamos, mergulharam nas águas claras do Nilo, apiedada, Ísis fez sua própria lança e, sem saber qual dos hipopótamos era seu filho, fincou sua arma nas costas de Hórus. Hórus precipitou-se das águas como uma pantera selvagem e correu atrás de Ísis, que fugiu como uma gazela amedrontada. Finalmente ele a apanhou, ergueu a faca e com um golpe arrancou-lhe a cabeça. Percebendo o que fizera, que sua cólera o traíra e que ferira Ísis mortalmente, Hórus deixou cair a arma e correu para as montanhas com a intenção de nunca mais voltar. Toth desceu a Terra e com palavras de magia colocou uma cabeça de vaca sobre os ombros de Ísis e a ressuscitou. Seth seguiu Hórus e o encontrou dormindo, sob o luar, debaixo de uma tamareira. Hórus acordou tarde demais, Seth já havia o agarrado. Com sua adaga que já havia rasgado Osíris, Seth arrancou os dois olhos de Hórus jogando-os ao sopé da montanha.


Hator, a deusa da festividade, da dança e da alegria encontrou seu amado Hórus deitado com a face virada para baixo. Ela começou a dançar e cantar para alegrar o deus. Quando viu que o deus-falcão estava sem os olhos, espremeu seu peito até que até as cavidades oculares de Hórus. O leite da deusa fez com que Hórus voltasse a ver. Tão penoso foi o combate entre Seth e Hórus que Toth, o deus da Lua e a divindade da ordem e a inteligência, se apiedou dos combatentes e interveio para mediar na disputa, levando ambos ao tribunal dos deuses e fazendo comparecer também Osíris, para que todos pudessem ouvir as razões de um e dos outros. O tribunal sentencia que, na longa e controversa vista da briga entre Seth e Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os direitos sucessórios de Osíris pertencem a Hórus. O filho póstumo de Osíris recuperava o que correspondia pela sua linhagem: a sucessão no trono de Egito. Assim, o filho era reconhecido pela divindade como soberano indiscutível, dentro da tradição clássica que adjudicava aos reis e aos reinos um sentido de vontade divina. Por esta sentença, Seth perde o seu poder sobre as terras negras e férteis do Egito, voltando a reinar apenas na terra vermelha, mas ele não é castigado nem afastado do mundo.

Seth passa a ser também uma divindade necessária ao ser acolhido por Rá, para que se ocupe nos céus de alternar a noite com o dia e deixe que sejam os reis os que governem sobre a terra.

Hórus, por sua vez, engendra quatro filhos: Imset (Amsiti), Hapi, Duametef (Tuemeft) e Quebsnauf (Kevsnef). Estes filhos, que acompanharão Osiris nos julgamentos aos mortos, também cuidam dos quatro pontos cardeais e se ocupam de velar pelas necessidades e pela saúde das entranhas de Osíris.

Ísis aprisionada

Certa manhã, quando Ísis e Néftis ofereciam pão ao Ka (a alma que cria e preserva a vida) de Osíris, foram capturadas pelos homens de Seth e amarradas como escravas. Seth levou Ísis para uma caverna escura e ali a trancou, ao seu lado colocou uma roca e novelos de linho, deu-lhe um cadáver como marido e obrigou-a a trabalhar dia e noite, fiando e costurando, sem descanso. A lua no céu crescia e minguava, e a barriga de Ísis ficava cada dia mais redonda. Toth, que também conhecia o tempo, começou a se preocupar com o aprisionamento da irmã e, com o propósito de libertá-la, enfiou sua esposa Seshat (deusa que registra o destino dos humanos) e Maát (deusa da verdade e justiça) disfarçadas de tecelãs. Num gesto abriram passagem para vários escorpiões que, com suas tenazes cortaram as cordas que amarravam a deusa. Aqueles que tentaram detê-la, os escorpiões matavam com picadas fatais, os capangas de Seth morreram um a un. Ísis caminhou do planalto arenoso até o delta e caindo em meio à touceira de papiro foi parteira de si mesma. Nascia Hórus, o menino dourado, o deus falcão. Com a presença devota da sua mãe, Hórus, foi educado no maior dos segredos, preparando-se com esmero e paciência. Porém, o sucessor do rei assassinado, ficou com Ísis apenas nos seus primeiros cinco anos de vida. Sabendo que não podia ficar no Delta, pois Seth já sabia do nascimento de Hórus, Ísis, como mãe protetora, partiu para os confins do Egito deixando seu filho aos cuidados da deusa-naja Renenutet. Assim Seth nunca encontraria o filho de Osíris, pois jamais acreditaria que uma mãe tão devotada como Ísis deixaria seu filho aos cuidados que outra pessoa ou deus.

A busca de Ísis

Ísis saiu em perseguição do baú por vários meses, suja e rasgada da dura jornada que a fez atravessar vários países, chegou finalmente a Biblos, na costa da Síria, onde se dizia que o esquife se desviara para a terra. Lá lhe contaram que, quando o caixão tocou a terra pela primeira vez, subitamente brotou uma tamargueira que prendeu em seu tronco a arca. Já dentro do caixão, agora na árvore, Osíris estava duplamente aprisionado. Ísis, então, foi à procura da árvore. Vários dias se passaram até que ela o encontrou e ali ficou em vigília.

Por fim, Melcader, um rei sírio, e seu exército passaram por ali. O rei admirou tanto a altura, largura e o vigor da árvore que decidiu derrubá-la e transformá-la em uma coluna central de seu palácio. De nada adiantaram os gritos de Ísis, os soldados do rei afastaram-na e derrubaram a árvore levando-a com eles. Ísis, porém, seguiu o rastro do veículo e chegou, depois de caminhar por várias semanas, e por fim, chegou ao palácio. Quando Ísis viu a coluna central do palácio, ergueu suas longas asas e mostrou sua verdadeira face de deusa para o rei Melcader e a rainha Astarte.

Comovidos com a história que Ísis lhe contara e com o sofrimento que passara, os reis Melcader e Astarte derrubaram a coluna e cortaram a madeira que envolvia o caixão.

Em retribuição Ísis passou um tempo na casa dos reis para cuidar de seus filhos e lançar-lhes feitiços de proteção e de cura. Os filhos e filhas do rei e da rainha Síria tanto se apegaram a deusa que, quando ela partiu, o filho mais velho do casal real, Maneros, partiu com Ísis em sua longa jornada de volta ao Egito. Depois de muito tempo no mar, finalmente o barco com Ísis chegou ao Egito (em Abidos, terra dos mortos). Maneros, filho mais velho de Melcader, não resistiu a viagem e morreu sem nunca pisar nas terras de Ísis, sua amada.

Abrindo o caixão, Ísis dançava e chorava lamentando a morte do irmão, do amado, do marido. Enquanto dançava e cantava seus cantos de amor, os grandes portões do Céu se abriram, e as estrelas circulantes giraram tecendo um novo destino para Osíris, fazendo para ele uma nova coroa de rei.

Os deuses comovidos ressuscitaram Osíris que deitou-se por mais uma noite com sua amada. Seu corpo, porém, ainda fraco pela morte sofrida, não era mais como antes e por isso Ísis escondeu o corpo fraco do irmão em um emanharado de rochas, um labirinto de pedras brancas. Então deixou-o ali apenas por uma noite e apressou-se em procurar Anúbis e Néftis para ajudá-la a Salvar Osíris. Seth, senhor da noite e das trevas, caçava javalis por perto de Abidos sob a luz do luar. Armado de Arco e flechas e com sua inseparável adaga, Seth aguçou a audição e farejou o vento. Sentiu um odor familiar e foi conferir o que era e logo chegou ao local onde Osíris estava guardado. Furioso o deus Seth golpeou, com sua adaga, várias vezes o corpo do irmão, separou a cabeça do corpo. Cortou fora os braços, as pernas e o pênis. Arrancou um por um os ossos das costas. Esquartejou o irmão como um animal morto e enfiou os pedaços num saco e atirou nas águas do Nilo. Sentindo o cheiro da morte, Anúbis avisou Ísis e Néftis e, juntos, correram até o rio. Ali, nas margem do Nilo, em Abidos, as deusas avistaram a cabeça cortada de Osíris.

Ísis, no entanto, não estava disposta e entregar seu amado irmão à morte mais uma vez, pois ela já sabia estar grávida e queria que Osíris também o soubesse. Numa caverna próxima, Ela Anúbis e Néftis esconderam a cabeça de Osíris e decidiram que, juntos, iriam percorrer todo o Nilo, desde o Alto Egito até o Mar, à procura dos pedaços do deus morto, para que pudessem fazê-lo reviver novamente. Porém seria impossível reunir todas as partes do Corpo de Osíris. Um peixe, vendo o pênis do deus boiar sob as águas azuis do Nilo, abocanhou o órgão gerador de Osíris e mergulhou para o fundo do rio. Sobeck, o deus crocodilo, viu tudo, e para proteger as deusas na jornada infrutífera, seguiu a embarcação que era guiada por Anúbis. Em cada cidade onde eram encontradas partes de Osíris, eram erguidos grandes templos em sua homenagem, Assim Ísis protegia os fragmentos do marido e confundia Seth, pois esse acreditava que Ísis deixara os pedaços em algum lugar dentro dos templos.

Quando finalmente todas as partes de Osíris, exceto o falo, foram encontradas, Ísis, Néftis e Anúbis voltaram para Abidos. O deus Toth foi o único a vê-los deixar o barco e entrar na caverna onde jazia a cabeça de Osíris, ele, comovido, desceu até a Terra e juntou-se ao grupo na empreitada de ressuscitar o seu irmão, qual ele mesmo ajudou a nascer.

Como o peixe engolira o pênis de Osíris, Ísis fez outro de cedro e ouro, e dizendo palavras de poder, a deusa tentou ressuscitá-lo. Não adiantou. Toth, o deus escriba, senhor da inteligência, o deus lua, chamou Anúbis para ajudá-lo em sua tarefa: juntaram tiras de linho, encheram Osíris de flores e óleos, amarraram as tiras e ataram com cordões. Osíris agora iria reinar no reino dos mortos e ali lutaria contra Apófis.

A vingança de Seth

Seth continuou remoendo sua raiva e passou boa parte do tempo no deserto reunindo sua tribo de 72 companheiros. Entre eles estava Aso, a rainha da Etiópia, uma bela feiticeira cujos poderes, dizia-se eram tão grandes quanto os de Ísis. Foi Aso que, em sonho, entrou no quarto de Ísis e Osíris e anotou as medidas exatas do corpo do deus-homem.

Nesta época Osíris providenciou uma grande festa em comemoração aos 28 anos de sua chegada ao Egito. Sabendo da festa, Seth elaborou um plano. Modelou uma bela caixa de cedro do tamanho e formato de um homem, revestiu-a com folhas de ouro e a enfeitou com pedras de turquesa.

Em meio à comemoração, chegou Seth e seus 72 companheiros vestidos com peles de animais, enquanto todos bebiam e dançavam no palácio, Seth trouxe seu presente e anunciou que, a caixa seria dada à quem coubesse deitado dentro dela. Os convidados provaram a caixa, um a um, mas nenhum dava o tamanho adequado, - Todos eram menores que a caixa - de maneira que chegou a vez de Osíris e ele sim, preenchia completamente o buraco da caixa, visto que Seth já a havia confeccionado com as medidas exatas obtidas por Aso. Os 72 conspiradores correram em direção do esquife, fecharam a tampa e a pregaram; depois soldaram as beiradas com chumbo derretido. Osíris gritou e se debateu para sair, mas sem resultado. Depois lançaram o rei, em seu esquife, ao Nilo e o rio arrastou a caixa e a sua carga para o mar.

O nascimento de Anúbis

Seth governava toda a terra vermelha do Alto Egito. Nestas terras o antílope saltava em meio a vegetação escassa, cães selvagens percorriam a areia fria sob o clarão da lua e javalis revolviam com o focinho, o chão entre as rochas. Ali os homens se agrupavam, banhando-se no sangue vermelho da caça, cobriam a cabeça com peles de animais e se escondiam das rajadas de areia. Seth casou-se com a sua irmã Neftis, mantendo a tradição iniciada pelos seus antecessores divinos. Mas Neftis não ficara satisfeita com o matrimônio, porque ela amava Osiris. A raiva de Seth afastava-o cada vez mais do conforto da esposa. Ele deixava Néftis muito tempo sozinha. Todas as noites ela entrava furtivamente no jardim do palácio de Ísis e Osíris para ter o consolo de estar perto dos irmãos, para ouvir os belos cantos de Ísis. A cada dia que passava, Néftis procurava tornar-se mais parecida com Ísis. Fazia pequenas tranças em seus cabelos, perfurmava-os com óleo de Lótus e a pele com cinabre. Pediu à Heket, a deusa-rã, guardiã das transformações para que todos a confundissem com sua irmã.

Vestida como Ísis, chegou sozinha ao jardim do palácio onde sentou e chorou. Foi ali que Osíris a encontrou, triste e bela. Confundindo-a com sua irmã e esposa, Osíris deitou-se com ela. A barriga da deusa Néftis ficou dura e redonda, e para que Seth não desconfiasse de sua gravidez, ela se trancou no quarto e impedia que qualquer um viesse visitá-la. Foi então que, certa noite sob a lua cheia, Néftis deixou o palácio e seguiu para o deserto. Lá, agachada entre as rochas, sozinha, em meio aos uivos dos lobos ela deu a luz a um menino. Não pôde, contudo, levá-lo para casa, temendo que Seth matasse a ambos. Assim, deixou o menino no deserto coberto apenas por um cobertor. Pela manhã, ao trazer a bandeja com leite e frutas, a criada notou que a barriga de Néftis estava mole, não ouvindo choro de criança, percebeu logo o que acontecera. Correu até o rio para avisar Ísis. Embora a criada não o dissesse, Ísis pôde ver a criança em seus olhos, e percebeu que era o filho de Osíris - o único filho de Osíris vivo. Ísis chamou alguns galgos que, farejando, encontraram a criança. A deusa o banhou no rio e o protegeu com feitiços, levando-o para o palácio e criando-o como se fora seu próprio filho. Como Ísis não tinha leite, deu a criança para um dos galgos fêmeas que acabara de dar à luz, para que esta o amamentasse.

A criança, que fora chamada Anúbis ("o iniciador do dia"), cresceu forte e com instintos caninos.

O nascimento dos deuses

Em algum lugar do Céu ou da Terra, a sutil Lua, Toth, jogou infindáveis partidas de damas com arrogante irmão Rá, o Sol, deixando ganhar a maioria dos jogos, porem Toth era um jogador habilidoso e durante um certo tempo apostou e ganhou cinco dias da luminosidade do Sol. O deus Lua recolheu os seus ganhos.

Então os quatro deuses e deusas gerados pela Mãe Céu reuniram-se tirando a sorte para ver quem deveria nascer primeiro. Osíris concordou em sair primeiro e fazer as pazes com Rá, que havia impedido-os de nascer, juntando forças com o Sol para reavivar a Terra e devolver ao Nilo sua abundância. Mas Seth queria nascer primeiro e lutar contra Rá.

Nasceu então Osíris, o primeiro deus-homem. Sua força era silenciosa; o saber sutil. Por onde ele passava, as rochas secas se fendiam e a água fluía pelo chão. Então, deformado pela ira, Seth rompeu a barriga de sua mãe, Nut, e caiu no chão. Tinha a cabeça de asno e seu nobre coração endureceu como um bloco de ferro.

No dia do nascimento de Seth, Rá enviou um vendaval cheio de fúria e arreia. Seth transformou-se numa áspide e, coleando, entrou pela greta de alguma rocha do deserto, esperando a tempestade passar. No terceiro dia, cessou o vendaval e então Ísis atravessou o portal do tempo, deixando Néftis sozinha na escuridão esperando pelo seu parto. No quarto dia, a deusa Néftis nasceu cercada de uma cortina de mistério. Dizem que na noite de seu nascimento os lobos uivaram e as rãs, engolindo o ar, saltaram das profundezas do rio. Diziam que a deusa trazia às Terras do Egito a verdade, mas a verdade só podia ser vislumbrada em sonhos. A partir desses modelos de deuses-homens e deusas-mulheres, foi feito o mundo. E os deuses chamaram essa Terra de Kemit.

REMIT - Criação da Humanidade

Rá, que havia criado o dia e a noite, a duração dos meses e do ano egípcio decreta, então, que ele poderia criar de si mesmo, seus filhos e filhas, qual chamaria de Remit (humanidade), e povoaria toda a Terra com eles, e mais ninguém, além da Remit, nasceria em qualquer dia ou noite do seu ano.

Os filhos de Rá eram como sementes que caem no chão, e assim como as sementes podiam ser boas ou más. Levadas pelo vento até os confins do mundo, criaram raízes, prosperaram e cresceram como ervas silvestres. Não podiam ser contidas.

Enquanto isso anos, séculos ou até milênios se passaram. E impossível dizer quanto tempo os irmãos e irmãs de Rá, permaneceram, em gestação, no ventre escuro da Mãe-Céu Nut. Lá estava Osíris, deus da fecundidade, a divindade que representa e sustenta a continuidade da natureza; ele é quem faz nascer a semente, quem a amadurece e quem prepara os campos; Osiris é o princípio da própria vida. Lá estava Ísis a irmã e esposa de Osíris. Ísis reinará em igualdade sobre o extenso domínio do Nilo, em perfeita harmonia com o seu irmão, formando o casal positivo do binômio. Se Osíris se encarrega de proporcionar a vida aos humanos, Ísis está sempre à frente, após a invenção de todas as artes necessárias para desenvolver a vida, desde a moagem do grão até as complexas regras e leis da vida familiar. Lá estava Neftis, a segunda irmã e a menor de todos, não podia ter a sorte de Ísis, a sorte de ser esposa do bom e belo Osiris; por isso Neftis ficou à margem da felicidade; também por isso era a representação do resto do país útil, a deusa das terras menos felizes, as terras secas junto dos campos de cultivo. Lá estava Seth, o segundo homem e o terceiro dos filhos, é a criatura que pressagiou o seu destino ao nascer prematuramente, dado que abriu o ventre da sua mãe Nut, fazendo-a sofrer cruelmente; Set é o deus da maldade, o espírito negativo e o representante do deserto sem vida, a personificação da morte.

Os Mitos do Egito - Origem

Como em todas as civilizações antigas, a cosmogonia ocupa a primeira parte dos textos sagrados egípcios. Para os egípcios, como para o resto das grandes religiões, a criação do Universo faz-se de um único ato da vontade suprema, a partir do nada, da escuridão, do caos original. O seu criador chama-se Áton (Num ou Atum) e era o espírito primogênito, um indefinido ser. Nun foi o berço espiritual, da primeira força em que tomariam forma os novos espíritos, os dois primeiros filhos divinos nasceram com corpos de humanos e cabeças de leão. Tefnut, passional e emotiva tornou-se a deusa das águas que caem na terra, da umidade. Shu, o prático, a mente, o deus do ar. Juntos ficavam na areia sentados sob os tornozelos como esfinges de olhos dourados, fitando direções opostas com as caudas entrelaçadas guardando as entradas para o mundo.

Também Shu e Tefnut vão continuar a obra iniciada por Áton, criando da sua união, outros dois novos filhos. A filha, de nome Nut, era a aurora e o anoitecer, o céu. O filho, Geb, era a força vital e passional da Terra. Eles eram um par de amantes divinos; toda emoção sentida por Geb era também sentida por Nut. Os dois deitavam-se juntos como se fossem um só, num abraço tão longo quanto a eternidade.

Um par de filhos foram os frutos dessa união celestial; o primeiro nasceu na aurora e recebeu o nome de Rá, a criança dourada, o nobre Sol. A segunda nasceu no anoitecer e recebeu o nome de Toth, o deus escriba, a Lua. As duas crianças projetavam luzes sobre os seus pais, que finalmente puderam ver os seus corpos, que antes só haviam tocado e sentido. Logo Nut estaria novamente grávida.

À medida que crescia a barriga da mãe céu, crescia igualmente o ciúme e a irritação do primogênito Rá, que, confiando na força de seu avô Shu, pediu ao deus do ar que erguesse Nut, afastando-a cada vez mais de seu amado irmão Geb, podendo vê-lo, mas incapaz de tocá-lo, exceto nas bordas do horizonte, onde os dedos das mãos e dos pés roçavam a Terra.

A Mitologia Egípcia

A principal característica da mitologia egípcia, no seu contexto histórico, é a procura de uma idéia central que dê sentido à multidão de divindades regionais, locais, aos muitos seres celestiais e terrenos, aos animais divinizados; em resumo, trata-se do primeiro grande esforço do Ocidente por achar uma razão externa e superior, a primeira tentativa para alcançar uma fórmula que explique os mistérios e seja a unificadora de todas as crenças tradicionais. Para os egípcios, estava claro que o ciclo anual do Nilo com suas enchentes era a base da sua existência e a partir dessa deram o trono ao sol, princípio e fim de cada dia, de cada ciclo anual, sob as denominações de Rá, Aton ou Amon.