Filosofia do Tantra

O tantrismo afirma a existência do divino e da pureza em todas as coisas. Somos o resultado e a manifestação de uma única fonte. O um é todos a um só tempo. Não existem separações, assim como não existe algo que seja necessário apartarmos.

É uma filosofia positiva, afirmativa da vida em todos os sentidos.
O mundo é a manifestação interminável do aspecto dinâmico do divino, sendo assim não pode ser menosprezado ou visto como negativo ou imperfeito, mas celebrado e penetrado, iluminado pela intuição e vivenciado com compreensão.

O devoto tântrico, Sadhaka, não sofre os revezes do sansara, ele experimenta o sansara, a vida e o universo como revelação da forma divina Shakti, da qual se enamora e a ele próprio anima. Tanto a dor como a alegria são precipitações dessa realidade divina, que é capaz tanto de uma ou de outra realidade e ao mesmo tempo transcender ambas.

Ao contrário de outras filosofias como o Janismo, por exemplo, que busca a iluminação negando o prazer, o corpo, a alimentação e todas as realidades físicas e cotidianas, o tantra afirma que a iluminação é alcançada exatamente vivenciando-se esses aspectos, sem os negar, sem tentar separar-se dessa realidade, reconhecendo-as como impulsos naturais e reais. Somente a partir do reconhecimento e da aceitação de nossa natureza podemos entender como ela funciona e transmutar os aspectos grosseiros de nossa personalidade nos mais elevados. Sendo assim, um dos princípios essenciais do tantra é que o homem tem de ascender através e por meio da natureza e não a rejeitando.

O tantra não pensa no divino como algo separado ou uma meta que se atinge depois da iluminação, mas o que somos no aqui e agora, em cada ato que realizamos, porque tudo é Shakti. É o divino interno que através de Shakti age dentro e através do sadhaka e quando isso é compreendido em cada função natural, todas as atividades deixam de ser comuns e meramente animais e tornam-se um ato divino.

“Quando o sadhaka come, bebe ou realiza o ato sexual, nada faz com a idéia de ser um indivíduo que está satisfazendo suas próprias necessidades limitadas, como um animal que furta da natureza – por assim dizer – o prazer que sente, mas pensando nesse prazer ele é shiva, e afirmando: “Sivo’ham, Bhaivaro’ham” (Eu sou Shiva).”[1]

O sexo no tantrismo tem um papel altamente simbólico. O Maithuna (união sexual) é o maior dos ritos sagrados. Não é realizado com o desejo do homem animal, ou homem vulgar, que visa apenas à satisfação momentânea de seus sentidos, e sim com o espírito de entrega, com a intenção de fundir-se no outro, reconhecendo a divindade no parceiro e em si mesmo. É o momento onde as polaridades (homem-mulher) desaparecem, sendo uma e única realidade.

O tantra visa integrar as forças excluídas àquelas em geral aceitas e experimentar dessa maneira a inexistência de polaridades. Assim rompe com a pressão do “proibido” reconhecendo em cada ato, em cada ser, a Shakti única que sustenta o universo tanto no macrocosmo como no microcosmo.

Na visão tântrica é possível adorar a Criadora do mundo utilizando seus próprios procedimentos.
Tantra pode ser resumido, grosseiramente, como a filosofia do amor à vida e o reconhecimento do Divino em tudo que existe.
________________________________________
[1] John Woodroffe – Shakti and Sakta – Ed. Madras e Londres 1929.

.

Nenhum comentário: