Considerações sobre o Tantra

Shakti é adorada como mãe ou como noiva. Essa denominação representa dois caminhos existentes no tantra, o da “mão-direta” e da “mão-esquerda”, respectivamente.

No caminho da mão-direita (mãe) não se realiza o Maithuna (o ato sexual sagrado), a não ser através de prática meditativa e subjetiva, nunca chegando a realizá-lo fisicamente. É o caminho preferido entre os budistas.

O caminho da “mão-esquerda” (noiva) realiza o Maithuna tanto nas esferas meditativas quanto físicas. É praticado em grupos pequenos e fechado, mais aceito no hinduísmo Shivaísta, ou como uma corruptela dentro deste, o Shaktismo. Usam o mundo da forma para transmutar e transcender o mesmo. A mão-esquerda possui uma natureza ocultista, sendo considerado um caminho para poucos.

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Ritual de purificação



Purificação dos elementos

A purificação dos elementos que constituem o corpo físico, terra, água, fogo, ar e éter é o requisito básico e preliminar de qualquer prática tântrica.

O sadhaka imagina que o “poder primitivo, Shakti está adormecida em seu interior, enrolada como uma serpente dormente, onde recebe o nome Kundalini. A localização da Kundalini é na base da coluna vertebral, no muladhara (base da raiz). O sadhaka pronuncia os mantras sagrados para despertá-la enquanto controla a respiração através da prática pranayama, tendo como objetivo limpar o caminho, ou canal espiritual, sushuma, que corre pelo interior da coluna vertebral, para que a Kundalini, desperta, possa por ele subir até o alto da cabeça.

Desta maneira, o sadhana visualiza a Kundalini desperta e subindo pelo sushuma, tocando em sua passagem os chacras (vórtices) que são a sede dos elementos constituintes do corpo.

O primeiro chacra é o Muladhara, sede do elemento terra, é representado por um lótus carmesim de quatro pétalas.
O segundo é o Svadhisthana (própria morada), está no nível dos órgãos genitais, é a sede do elemento água e representado por um lótus rubro-escarlate de seis pétalas.
O terceiro localiza-se a altura do umbigo, chama-se Manipura (a cidade pura da jóia brilhante), é a sede do elemento fogo e representado por um lótus azul-escuro de dez pétalas.

Estes primeiros chacras representam os centros a partir dos quais a vida da maioria das pessoas é governada. Enquanto que os centros acima reproduzem um modo superior de experiência.

O quarto, à altura do coração, Anãhata é o chacra no qual a primeira compreensão da divindade é vivenciada. Aqui o “deus” desce para tocar o seu devoto.
É onde se pode ouvir o “som de Brahmam”. O “OM” fundamental da criação que é a própria deusa como som. Esse chacra é representado como um lótus rosáceo de doze pétalas. É a sede do elemento ar.

O quinto e último elemento, o éter, está sediado na região da garganta no chacra Visuddha (completamente purificado) é representado como um lótus roxo fosco de dezesseis pétalas.
Entre as sobrancelhas temos o quinto chacra, Ajnã, é o lótus do comando, branco como a lua, e visto como tendo duas pétalas que brilham através da meditação. Esta é a sede da forma das formas, onde o sadhaka contempla os “céus” de Shakti.
Acima, o último chacra, Sahasrara, é representado como um lótus multicolorido de mil pétalas, no topo da cabeça. Aqui a Shakti após ter passado por cada um dos chacras, fazendo-os florescer na forma de lótus, uni-se a Brahmam. Essa união simultaneamente realiza e dissolve os mundos do som, da forma e da contemplação.



O sadhaka deve imaginar e intencionar a purificação de seu corpo impregnando os chacras de Shakti desperta. Somente um sadhaka perfeito pode despertar, de fato, a Kundalini.
Todos os rituais e métodos praticados no tantrismos visam facilitar a realização da divindade interna.

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Os caminhos do Tantra

Para se tornar um adepto tântrico, sadhaka, é preciso ser inteligente, controlar o sentido, não prejudicar nenhum ser vivo, fazer sempre o bem para todos e não ser dualista.

Os métodos utilizados pelo sadhaka são: rituais de adoração (bakti-yoga), meditação na imagem interna da deusa; atos de oferenda mental e externa, repetição (japa) dos sons sagrados (mantras), uso dos gestos rituais (mudras) e a purificação dos cinco elementos que constituem o corpo físico.

Um sadhaka jamais conseguirá experimentar o divino em si mesmo sem estar plenamente convencido dessa presença, portanto, as diferentes práticas que realizam visam incorporar e reconhecer a divindade, em si mesmos e nos outros.

O primeiro ato de devoção consiste em colocar ante seus olhos a imagem da deusa. Pode ser uma estátua, uma pintura, um símbolo que o remeta a divindade, inclusive usar a imagem de mulheres que lhe são próximas, como a da mãe, da irmã ou da esposa, pois todas são representações do “poder primordial”, Shakti.

O sadhaka contempla essa imagem em seu interior projetando a energia para o exterior e novamente internalizando. Repete durante várias vezes, imitando o ato de criação da divindade que expandi a si mesma recolhendo-se posteriormente. Essa prática ajuda sua mente a reconhecer e responder espontaneamente à presença da divindade em todas as partes.

Os rituais executados na presença de uma imagem simbólica da deusa, tais como a oferenda de diversos artigos (flores, água, perfumes, alimentos, incensos, etc.) é o meio pelo qual o sadhaka conduz a deusa para a esfera social, devendo receber a todos que cheguem a seu lar ou trabalho da mesma maneira, santificando assim, a vida cotidiana.

Os mudras, gestos rituais, são utilizados durante as cerimônias e meditações. O mais importante para o sadhaka é o “Yoni mudra”, o órgão feminino. O Yoni não pode ter outro sentido que não seja de “altar” ou “local sagrado”.

Uma vez que a presença da deusa esteja incorporada as suas atitudes e visões, esses rituais preliminares são dispensados e o sadhaka está pronto para realizar, se assim desejar, o ritual mais sagrado do tantra, o Maithuna (ato sexual).

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Filosofia do Tantra

O tantrismo afirma a existência do divino e da pureza em todas as coisas. Somos o resultado e a manifestação de uma única fonte. O um é todos a um só tempo. Não existem separações, assim como não existe algo que seja necessário apartarmos.

É uma filosofia positiva, afirmativa da vida em todos os sentidos.
O mundo é a manifestação interminável do aspecto dinâmico do divino, sendo assim não pode ser menosprezado ou visto como negativo ou imperfeito, mas celebrado e penetrado, iluminado pela intuição e vivenciado com compreensão.

O devoto tântrico, Sadhaka, não sofre os revezes do sansara, ele experimenta o sansara, a vida e o universo como revelação da forma divina Shakti, da qual se enamora e a ele próprio anima. Tanto a dor como a alegria são precipitações dessa realidade divina, que é capaz tanto de uma ou de outra realidade e ao mesmo tempo transcender ambas.

Ao contrário de outras filosofias como o Janismo, por exemplo, que busca a iluminação negando o prazer, o corpo, a alimentação e todas as realidades físicas e cotidianas, o tantra afirma que a iluminação é alcançada exatamente vivenciando-se esses aspectos, sem os negar, sem tentar separar-se dessa realidade, reconhecendo-as como impulsos naturais e reais. Somente a partir do reconhecimento e da aceitação de nossa natureza podemos entender como ela funciona e transmutar os aspectos grosseiros de nossa personalidade nos mais elevados. Sendo assim, um dos princípios essenciais do tantra é que o homem tem de ascender através e por meio da natureza e não a rejeitando.

O tantra não pensa no divino como algo separado ou uma meta que se atinge depois da iluminação, mas o que somos no aqui e agora, em cada ato que realizamos, porque tudo é Shakti. É o divino interno que através de Shakti age dentro e através do sadhaka e quando isso é compreendido em cada função natural, todas as atividades deixam de ser comuns e meramente animais e tornam-se um ato divino.

“Quando o sadhaka come, bebe ou realiza o ato sexual, nada faz com a idéia de ser um indivíduo que está satisfazendo suas próprias necessidades limitadas, como um animal que furta da natureza – por assim dizer – o prazer que sente, mas pensando nesse prazer ele é shiva, e afirmando: “Sivo’ham, Bhaivaro’ham” (Eu sou Shiva).”[1]

O sexo no tantrismo tem um papel altamente simbólico. O Maithuna (união sexual) é o maior dos ritos sagrados. Não é realizado com o desejo do homem animal, ou homem vulgar, que visa apenas à satisfação momentânea de seus sentidos, e sim com o espírito de entrega, com a intenção de fundir-se no outro, reconhecendo a divindade no parceiro e em si mesmo. É o momento onde as polaridades (homem-mulher) desaparecem, sendo uma e única realidade.

O tantra visa integrar as forças excluídas àquelas em geral aceitas e experimentar dessa maneira a inexistência de polaridades. Assim rompe com a pressão do “proibido” reconhecendo em cada ato, em cada ser, a Shakti única que sustenta o universo tanto no macrocosmo como no microcosmo.

Na visão tântrica é possível adorar a Criadora do mundo utilizando seus próprios procedimentos.
Tantra pode ser resumido, grosseiramente, como a filosofia do amor à vida e o reconhecimento do Divino em tudo que existe.
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[1] John Woodroffe – Shakti and Sakta – Ed. Madras e Londres 1929.

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Tantra

Tantra significa “continuidade”. Suas origens são desconhecidas.

Muitos atribuem a criação do Tantra ao próprio Buda, outros afirmam por diversos fatores, que o tantra possui sua origem no período pré-védico. Vamos encontrar o Tantra difundido e misturado ao hinduísmo Shivaísta, tanto quanto no Budismo Mahayama e Vajrayama.

Os textos sagrados tântricos são muitos, Ãgama é um dos mais conhecidos e seus seguidores o consideram como o “quinto veda”. Existem outros textos que são atribuídos a Buda e outros sem autoria conhecida chamados “Termas” (tesouros), pertencentes a diferentes escolas budistas tibetanas. São manuscritos, que estavam guardados em locais secretos ou na mente dos reveladores.

“(...) Os Termas são ensinamentos que representam uma profunda, autêntica e poderosa forma tântrica do treinamento budista. Centenas de tertons, os descobridores dos tesouros, encontraram milhares de volumes de escrituras e objetos sagrados, escondidos na terra, na água, no céu, nas montanhas, nas rochas e na mente. Praticando estes ensinamentos, muitos dos seus seguidores alcançaram o estado de iluminação completa, o estado búdico (...)”[1]

O Tantra é o reconhecimento do divino em todas as criaturas vivas, em tudo que é vivo. O deus pessoal – Isvara – manifesta-se em tudo a partir de Shakti (poder) que o anima e lhe dá forma. É a deusa-mãe, o feminino primordial em seus diferentes aspectos que são reverenciados e reconhecidos.

Todas as deusas, consortes dos deuses indianos, são manifestações de “Shakti” ou “poder primordial” de seus maridos divinos. Representam a energia que os torna manifestos.
Shakti é a contraparte, o poder primordial de Brahmam. Um não existe sem o outro. Shakti está sempre jogando, cria, preserva e destrói. Quando se encontra inativa, ou não participante então é Brahmam, o absoluto.


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[1] Tulku Thondup Rinpoche, Hidden Teachings of Tibet

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Yoga - Diversidades

Alguns dos diferentes tipos de Yoga

Rája Yoga, Yoga Mental
Rája significa real e consiste em quatro partes: abstração dos sentidos, concentração mental, meditação e hiperconsciência. Possui um número maior de técnicas mentais do que outras modalidades de Yoga.

Bhakti Yoga, Yoga Devocional
Bhakti significa devoção. Consiste em cultuar as forças da natureza, o Sol, a Lua, as árvores, os rios, bem como divindades. Utiliza mantras e cânticos.

Karma Yoga - Yoga da Ação
Reconhece e aceita o Karma, lei de causa e efeito, e busca atingir a “ação desinteressada” que não visa benefícios pessoais, recompensas ou reconhecimento. Dessa maneira elimina os karmas do passado sem criá-los para o futuro.

Jnana Yoga, Yoga do autoconhecimento
Jnana significa conhecimento. O método dessa modalidade consiste em meditar na resposta que o seu psiquismo elaborar para a pergunta “quem sou eu?”, até que não haja mais nenhum elemento que possa ser separado do Self e analisado. Nesse ponto, o praticante terá encontrado a Mônada, ou o Ser. Dá mais ênfase à busca do autoconhecimento pela via da meditação.

Laya Yoga, Yoga da Paranormalidade
Laya significa dissolução. A intenção neste tipo de Yoga é dissolver a personalidade no Eu superior para que todo o seu poder e sabedoria fluam diretamente para a consciência do praticante. Desenvolve os poderes paranormais através de técnicas corporais, respiratórios e mantras.

Mantra Yoga, Yoga do som
Trata-se de um ramo que pretende alcançar a meta através da ressonância de determinados sons que são transmitidos aos centros de energia do corpo, conduzindo-os a um pleno despertar. Como consequência, a consciência aumenta e o praticante atinge a iluminação.

Tantra Yoga, Yoga da sensorialidade
Tantra significa, entre outras coisas, a maneira correta de fazer qualquer coisa. É a via do aprimoramento e evolução interior através do prazer. Ensina como relacionar-se consigo mesmo, com os outros seres humanos, família, superiores ou inferiores hierárquicos, animais, plantas, meio ambiente, tudo enfim. Também trata de tudo o que se refira à sensorialidade e à sexualidade. Pretende atingir a meta mediante o reforço e canalização da libido. Utiliza a sexualidade como alavanca para a evolução interior.

Swásthya Yoga, Yoga da auto-suficiência
Swásthya significa auto-suficiência. Sua prática consiste em oito técnicas: linguagem gestual, sintonização com arquétipos, mantras, técnicas respiratórias (pranayama), purificação das mucosas, posturas corporais (asanas), técnicas de descontração e meditação. Alguns o consideram o mais completo.

Hatha Yoga, Yoga Físico
Hatha significa força. Restringem-se as posturas corporais (asanas) e técnicas respiratórias (pranayama). Outras técnicas podem ser agregadas, tais como contração de partes do corpo, esfíncter (bandhas) e linguagem gestual (mudrás), mas não constituem uma regra. É o yoga mais difundido no Ocidente.
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Yoga

O Yoga ou a “prática da concentração introvertida” é, em seu modelo clássico, atribuída a Patanjali através de sua obra Yoga-Sutra de quatro volumes.

Os primeiros três volumes datam do século II a.C., sendo que o último é aproximadamente do século V d.C.. O Yoga-Sutra com seu antigo comentário Yoga-Bhãsya são considerados as mais notáveis obras da literatura universal.

Patanjali é uma figura lendária e cercada por controvérsias, pouco ou quase nada sabemos sobre ele. Em uma das diversas lendas que envolvem seu nome é tido como a encarnação do deus serpente “Sesa”, que contorna e sustenta o universo sob a forma de oceano cósmico.

Os eruditos o situam no século II a.C..

(representação do Patanjali)


O Yoga de Patanjali ou Yoga clássico assume toda a conceituação Samkya a cerca da existência. É um sistema prático que visa através de diferentes técnicas, disciplinar e controlar a mente, conduzindo o yogue ao silêncio mental ou isolamento (kaivalya) e assim chegar ao homem interno, o observador divino.

O Yoga e ramificações

Existem inúmeros tipos de yoga que estão associadas a outras escolas de pensamento hinduístas, porém em sua maioria o objetivo mantém-se o mesmo: usar técnicas e práticas que conduzam o homem além do estado comum e físico de sua existência através da expansão de consciência.


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Filosofia Samkya

Enquanto realidade física nossas percepções estão contidas e reduzidas as gunas. Todas essas percepções são consideradas como reais, mas não representam o verdadeiro conhecimento. Não ter acesso a este conhecimento nos torna prisioneiros de dukhatraya, o triplo infortúnio existencial. Sempre estamos infelizes com nós mesmos, com os seres vivos que nos rodeiam e com as forças da natureza.

As qualidades das gunas são transitórias no que diz respeito às inúmeras variações que podem assumir (diferentes níveis de percepção da realidade), mas permanentes em seu contínuo fluir. Na esfera individual podemos cessar o movimento das gunas ao conduzirmos nossa mente ao estado de silêncio absoluto.

A mente está em constante agitação, transfigurando-se continuamente nas formas e cores de tudo que percebe. Assim, a mente é uma onda contínua, e por si mesma jamais ficaria parada ou em silêncio a ponto de conseguir refletir o homem interior, ou o observador.

Para que isso aconteça é necessário reter as impressões sensoriais vindas do exterior bem como os impulsos internos que são as recordações, pressões emocionais e as incitações da imaginação.

O homem interno, o observador, é eternamente livre. O homem comum não consegue compreender essa liberdade devido ao estado turbulento, ignorante e defensivo de sua mente.

O verdadeiro conhecimento pode ser obtido somente quando a mente for levada a sua condição de repouso, nesse momento é possível perceber o homem interior, a mônoda vital – Purusha. É preciso estar consciente de que não importa o que aconteça, nada afeta ou macula a mônada que apenas observa a tudo esperando ser reconhecida.



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Tattvas

Os tattvas constituem os 24 princípios da evolução cósmica. São aplicados no sentido de enumerar as qualidades, partes, composições de alguma coisa. Por exemplo: os tattvas de uma árvore poderiam ser a raiz, o tronco, ramos, folhas, flores e fruto.
Os tattvas emergem gradualmente um do outro. Esse emergir é um processo natural de desdobramento ou evolução do estado normal de consciência desperta, a partir do estado latente de prakrti.

As etapas constituintes do princípio de evolução são:

Prakrti – a causa dos fenômenos

Mahat – Também conhecido como budhi (inteligência pura) é a base inteligente de todos os seres.

Akankara – manifestação do eu egóico que tem por princípio provocar a individualização do intelecto.

A partir de akankara ocorre a formação de duas correntes distintas: universo objetivo e universo subjetivo.

Essas correntes são coordenadas por três princípios chamados “gunas”, a saber:
Sattvas (luminosidade), rajas (movimento) e Tamas (inércia).




De Sattva e Rajas emanam onze faculdades que formam o mundo subjetivo (Indriya) e de Tammas as cinco qualidades sensíveis ou Tanmatras e os cinco elementos grosseiros, formam o mundo objetivo.

Sattva e Rajas:
As onze faculdades individuais (indriya) são:
Seis faculdades cognitivas: audição, tato, visão, paladar, olfato e mente.
Cinco faculdades de ação: palavra, apreensão (mãos), locomoção (pés), excreção e prazer.

Tammas:
As cinco qualidades sensíveis: o som, o toque, cor ou forma, sabor e odor.
Os cinco elementos grosseiros e que são os responsáveis pelo universo material: éter, ar, fogo ou luz, água e terra.

Esse desdobramento natural (tattvas) representa a densificação ou materialização. Para atingirmos o estado de iluminação é necessário fazer o caminho inverso, até chegarmos ao observador.
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Princípios do Samkya


Segundo o pensamento Samkya toda a manifestação cósmica está baseada em uma dualidade fundamental. Purusha e Prakrti.
Apesar disso não é um sistema dualista, pois um princípio não existe em separado, não estão isolados ou independentes.

Purusha - É a testemunha, a consciência que observa os fenômenos de Prakrti, sem se identificar de forma alguma com o que é observado.

Prakrti – é a matriz que contém em si todos os fenômenos possíveis e não o fenômeno em si. Um efeito qualquer está contido em potencial na sua causa específica, como o leite contém em si a manteiga em forma latente e potencial, mas não é a manteiga. Assim, todos os fenômenos manifestáveis são efeitos de uma causa primordial, uma matriz. Por essa razão, Prakrti, a causa primordial, é imanifesta, sendo que qualquer manifestação de sua parte seria um efeito e não mais uma causa.

A verdadeira liberdade só pode ser alcançada quando conseguimos nos livrar de todos os aspectos de Prakrti.
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Samkya

Samkya literalmente significa número. Pensa a existência através de categorias numeráveis, os tattvas.

Suas principais obras são:
- Samkya-Sutra escrita por Kapila;
- Samkya-karila escrita por Ishvarakrishna

O universo é comporto por dois princípios:

Purusha – O indiferenciado, o observador, a testemunha.
Prakrti – Matriz e causa de todos os fenômenos existentes.

O Samkya é a base teórica da yoga tradicional. Define o objetivo a ser alcançado pelo yogue de maneira tal que a yoga fica desprovida de sentido ao não se conhecer os preceitos de Samkya.
Tara Michael em seu “Manual de Yoga” diz: “onde termina o Samkya começa o Yoga”.

Atribui-se a fundação do Samkya a Kapila, um santo semimítico, autoiluminado. Seu nome significa “o vermelho”, uma alusão aos seus poderes solares.

Kapila deve ter vivido antes do século III a.C, porém o texto clássico cuja autoria lhe é atribuída pertence a uma data muito posterior entre 1380 – 1450 de nossa era.

A obra Samkya-karika de Ishvarakrishna foi composta durante a metade do século V d.C..
É um sistema filosófico e não religioso, seu objetivo é chegar ao divino interno.
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Sutra do coração

(monges tibetanos)

Sutra do Coração é um dos textos mais sagrados do budismo.

Além de ser utilizado na contemplação meditativa da vacuidade, esse sutra com freqüência é entoado como meio de superar os vários fatores que impedem o progresso espiritual. [...] A idéia é que muito do que entendemos como sendo obstáculos, na verdade, provém do apego demasiadamente arraigado à nossa própria existência e ao autocentramento que isso produz. Ao refletir em profundidade sobre a natureza essencialmente vazia de todas as coisas, removemos quaisquer apoios para que os assim chamados obstáculos criem raízes dentro de nós. Desse modo, a meditação do Sutra do Coração, é considerada um método poderoso para superar obstáculos.

Texto de Geshe Thubten Jingpa.

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Tendências do budismo

A doutrina budista subdivide-se em três tendências:

- Himayana – Pequeno veículo
- Mahayana – Grande veículo
- Vajrayana – Veículo do diamante


Himayana

Um pequeno veículo (barca) que permite a iluminação de um único homem. Mantém as teses primitivas do budismo e possui adeptos difundidos no Sri Lanka, Birmânia, Laos, Tailândia e Camboja.

O himayana valoriza a comunidade monástica (samgha) e para se chegar ao nirvana faz-se necessária a supressão total do indivíduo, um puro nada. Essa doutrina também é conhecida como “niilismo metafísico”.
Trata-se de uma via mais rápida para alcançar a iluminação ou o estado de Buda.

Mahayama

O grande veículo (barca) que conduz vários homens ao caminho da iluminação. O bodhissattva (aquele que está a caminho da iluminação), não dá importância a vida monástica e acredita que todos podem alcançar o nirvana desde que siga a doutrina de Buda. Encontramos essa tendência em todos os locais onde o budismo se instalou principalmente, na China, Japão e no Vietnã.
Chega-se ao nirvana por um caminho mais demorado, pois o bodhissattva permanece no mundo para conduzir outros homens a iluminação.
O mahayama é menos intelectualizado, menos ascético e pessimista que o himayana.

Vajrayana

É a tendência menos conhecida, propagada no Tibete, onde recebe o nome de Lamaísmo. Mistura o budismo com as crenças totêmicas e animistas regionais.
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Trajetória do budismo


Após a morte de Buda, seus ensinamentos foram difundidos por toda a Índia. No século III antes da era cristã o budismo passa a ter como aliado o melhor monarca que o mundo já conheceu, Asoka (273 a 226 a.C).

Foi durante o reinado de Asoka que o budismo começou sua peregrinação pelo restante do mundo estabelecendo-se principalmente no Ceilão, Birmânia, Sião, Camboja, Turquestão, Tibet, China, Coréia e Japão.

O Budismo entra em decadência no século III da nossa era motivado por uma forte campanha realizada pelos Brâmanes que viam no budismo uma ameaça a suas doutrinas. O budismo é expulso da Índia no século XII de nossa era.

Asoka, o grande monarca.



O império de Asoka abrangia quase toda a Índia com exceção de alguns reinos do sul e estendia-se sobre uma parte do planalto iraniano.

Por ser um território extenso e heterogêneo, Asoka resolveu criar quatro vice-reinos: Pendjab; Malva; Kalinga e Decão, respeitando dessa maneira suas divergências culturais.

O grande acontecimento da vida desse monarca foi sua conversão ao budismo após a sangrenta conquista de Kalinga na costa oriental. Ficou impressionado com os horrores da guerra e decidiu criar um reino sem violências tendo como princípios a amizade, a liberalidade, moderação, paz e alegria na alma.

Sua obra administrativa, social e religiosa possui dimensões colossais.

Enviava missões religiosas às terras vizinhas e distantes com a intenção de difundir o budismo.

Após 36 anos de reinado, Asoka morre e seu reinado é dividido entre seus descendentes.


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Budismo III

A moral budista.
No budismo a moral divide-se em dois aspectos, um chamado de positivo e a outro de negativo.

Positivo:
- Resignação ao sofrimento individual;
- Meditação sobre o sofrimento dos vivos;
- Esforçar-se para participar, em imaginação, das dores e alegrias dos demais;
- Ser benevolente;
- Ser piedoso;
- Sacrificar-se pelos outros.

Negativo:
- Não furtar;
- Não cometer impureza;
- Não mentir;
- Não beber licores embriagantes

Os Livros Sagrados

As informações sobre Buda e sua doutrina encontram-se nas Escrituras Budistas, confeccionadas em diferentes épocas e por diferentes povos.

A doutrina budista foi transmitida oralmente por aproximadamente 400 anos o que por certo causou inúmeras perdas.

Na escola “Theravada” ou “Escola dos Antigos” encontramos uma grande quantidade de textos, na língua Pali, chamados Tripitake, que literalmente significa “os três cestos” (os pergaminhos eram armazenados em cestos).

- O primeiro cesto, Vinaya (mosteiro) descreve as regras monásticas;
- O segundo cesto, Sutra (textos) fala sobre os meios e métodos necessários para que um discípulo alcance a iluminação e o estado de Buda;
- O terceiro cesto, abhidharma (dharma explanado) – fala sobre a doutrina e concepções filosóficas.

Cada uma das numerosas seitas e escolas do budismo possui suas próprias escrituras ou cânones.



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Filosofia Budista



“Não acredites numa coisa simplesmente por ouvir dizer; não acredites sob a fé das tradições, pois elas são veneradas há numerosas gerações... não acredites em nada através unicamente da autoridade de teus mestres ou sacerdotes. Crê no que tu mesmo experimentares, provares e reconheceres como verdadeiro, que esteja de acordo com o teu bem e o dos outros e conforma tua conduta a isso.”

O budismo afirma que a raiz da enfermidade cósmica é um estado mental involuntário comum a todas as criaturas. O desejo originado na ignorância é todo o problema ainda que seja uma função natural do processo vital, não é impossível de ser erradicado.

Não nos apercebemos que vivemos em um mundo de meras convenções e que estas determinam nossos pensamentos, sentimentos e atos. Imaginamos que nossas idéias sobre as coisas representam a realidade última e nos aferramos a elas criando uma rede na qual nos aprisionamos. São criações da mente que geram padrões convencionais e involuntários de ver as coisas, de julgar e de agir. Nossa ignorância as aceita sem questionamento, considerando-as como fatos da existência e isso é a causa de todos os sofrimentos que constituem nossas vidas.

Desejos e expectativas inconscientes convertidos em decisões e atitudes subjetivamente estabelecidas transcendem os limites do presente, precipitam nosso futuro e estão determinadas por um passado herdado pelo Karma (relações incompletas) em sucessões de renascimentos e mortes.

A dor causada pela ignorância pode ser curada através do “caminho do meio”, evitando-se todas as formas de extremos.

Esse “caminho do meio” declara que a validade de uma concepção é sempre relativa à posição que ocupa uma pessoa no caminho do progresso que conduz da ignorância ao conhecimento búdico. Atitudes de afirmação e de negação pertencem a seres mundanos que estão vulneráveis à própria ignorância de si mesmas.

O Budismo não dá importância alguma a um conhecimento tal que torne o homem ainda mais enredado em sua vaidade. São considerados como muletas, tanto materiais como espirituais, que preservam a personalidade e posições egóicas.

O mérito de um fato ou idéia varia de acordo com o grau de discernimento do observador, ou pelo tamanho da consciência que possua de si e do universo circundante.

A doutrina de Buda chama-se “Yãna” que significa “veículo” ou “barca”. O indivíduo é transportado pela iluminação (bodhi).

Entrar no veículo budista (barca da disciplina) significa começar a cruzar o rio da vida, desde a margem da experiência cotidiana da ignorância espiritual, do desejo e da morte até a margem da sabedoria transcendental que é a libertação do Sansara, o Nirvana.
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O Caminho do Meio

(trecho do filme "O Pequeno Buda")

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Budismo II

As Quatro Nobres Verdades


Primeira: A dor é universal, tudo que existe é dor.

“... o nascimento é dor, a velhice é dor, a doença é dor, a morte é dor, a união com o que não se ama é dor, a separação daquele que se mana é dor, a não realização de um desejo é dor, todos os objetos de afeição são dor...”

Segunda: A origem da dor está nas paixões e no desejo da existência.

“... a dor está na sede (da existência) que conduz os passos de renascimento em renascimento, acompanhada do prazer e da cobiça, que encontra aqui e ali, sua satisfação; a sede dos prazeres, a sede da existência, a sede da mutabilidade...”

Terceira: O fim da dor é a extinção do desejo.

“... a supressão da dor está na extinção desta sede (de existência) através do aniquilamento completo do desejo, quer banindo-o ou renunciando a ele, quer libertando-se dele e não lhe deixando campo algum...”

Quarta: O meio de libertação da dor é a contemplação universal e a mortificação dos apetites através do “Sendero Óctuplo”.

“... o caminho que leva a supressão da dor é o caminho sagrado de oito vias que se chamam: fé pura, vontade pura, palavra pura, ação pura, meios de existência puros, atenção pura, memória pura, meditação pura...”


Aquele que consegue apartar-se dos desejos e consequentemente do Sansara atinge o estágio de “Nirvana”.

A palavra “nirvana” significa “extinção” e pode ser compreendido como um estado de paz perfeita, consequente do cessar do desejo que é a origem da dor e causa e consequência do ciclo de mortes e renascimento (sansara).

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O Budismo


O Budismo nasceu no século VI a.C. através da figura de um príncipe, pertencente a casta do Kshátriyas (nobres e guerreiros), chamado Sidarta Gautama.

Os relatos de sua vida confundem-se com fatos reais e lendas e é impossível separar uma da outra.

Sidarta, o Buda.

Sidarta nasceu da Rainha Maia, que morreu alguns dias após seu nascimento. Foi criado recebendo os mais altos ensinamentos Bramânes e protegido por seu pai das misérias do mundo. Sua família possuía diversos palácios, um para cada estação.

Sidarta era casado com uma jovem princesa e viveu uma vida de luxo até os 29 anos.

Muitos relatos contam que apesar de Sidarta possuir tudo que qualquer pessoa almejava em uma vida, sentia-se triste, incomodado com alguma coisa que não conseguia explicar.

Aos 29 anos resolveu sair do Palácio e ver como era a vida fora dos portões de sua fortaleza. Assim surge a “lenda dos quatro encontros”.

O primeiro encontro foi com um ancião, percebendo a vaidade de sua juventude. O segundo encontro com um doente e percebendo que sua saúde também era passageira. No terceiro encontrou a morte e entendeu que o destino de todos os homens seguia essa mesma direção. Por fim encontrou um monge, com feições calmas e felizes.

Decidiu então seguir a vida do monge renunciando a todo luxo e partindo em busca de uma verdade maior e de paz para seu coração.

Reuniu-se a um grupo de cinco ascetas tornando-se um deles, infringindo a si mesmo as mais austeras macerações, vivendo praticamente sem alimento.

Após sete anos de austeridades percebeu então que todas as formas de abstenção a que tinha se colocado não o conduziriam nem à verdade e nem à salvação. Banha-se e come, sendo por esses atos, abandonado pelos ascetas.

Com 36 anos mergulha na meditação, sentado sob uma figueira (mais tarde conhecida como árvore da sabedoria) e na luz de uma lua cheia no mês de maio (que vem dar origem ao festival de Wesak) Sidarta alcança a iluminação e a verdade lhe é revelada, tornando-se então “O Buda”, “O Iluminado”.

Segundo a lenda, antes de conseguir se tornar Buda teve que enfrentar as provocações e a fúria de um demônio chamado Mara (representação de todas as coisas mundanas).

Após as revelações permanece por quatro semanas na mesma posição, sob a árvore da sabedoria gozando sua libertação e felicidade.

Uma tempestade cai durante sete dias e Sidarta, agora o Buda, é envolvido sete vezes pelos anéis de uma serpente que o protege conservando assim a paz em seu coração.
Assumindo a serpente a forma de um jovem, Buda pronuncia suas primeiras palavras, conhecidas como “beatitudes búdicas”:

“Bem aventurado a solidão do feliz que conhece e vê a verdade; bem aventurado aquele que se mantém firme em sua vida, que não faz mal a nenhum ser; bem aventurado aquele por quem toda a paixão e todo o desejo tiveram fim; vencer a obstinação do eu é realmente a suprema beatitude.”

Buda resolve revelar as verdades que alcançou e resolve fazê-lo primeiramente aos seus antigos parceiros de ascetismo que estão em Benarés. Buda conta a eles o que vivenciara e pronuncia o famoso “Sermão de Benarés”, resumindo o que se torna a base de todo o budismo, as “Quatro nobres verdades”. Convertendo os ascetas em seus primeiros discípulos.

A partir de então se dedicou a difundir a verdade e converter a todos que encontrava pelo caminho. Em suas verdades não havia distinção entre castas, raças, homens ou mulheres.
Todos podem alcançar a iluminação através das nobres verdades e do “Sendero Óctuplo”.

Buda viveu até os 80 anos, quando já envelhecido e fraco decide entrar para o nirvana. Deitou-se sob duas árvores gêmeas que se encheram de flores milagrosamente e morre após pronunciar as palavras “lutai sem descanso” para seus discípulos.
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